segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

TOP 100 ALBUNS e TOP 10 EPs de 2008!

Esta não é lista dos "melhores do ano". Esta é lista dos discos que fizeram meu ano melhor:

TOP 100 ALBUNS de 2008

1. “Same Old Story” – LANNIE FLOWERS
2. “Popmonster” – GREG POPE
3. “Backward Forever” – ANY VERSION OF ME
4. “Army Navy” – ARMY NAVY
5. “On A Happy Note…” – LEAVE
6. “Esque” – THE RIP OFF ARTISTS
7. “Under The Radar” – THE GOLDBERGS
8. “Jet Sounds” – PRIVATE JETS
9. “Kai Reiner” – KAI REINER
10. “How Will I Know If I’m Awake” – BRENT CASH

11. “High Five” – THE PRIMARY 5
12. “B Side Oblivion” – THREE HOUR TOUR
13. “Acima Da Chuva” – VOLVER
14. “Feel The Sun” – SQUIRES OF THE SUBTERRAIN
15. “Fifth” – JUNEBUG
16. “Restless” – THE SMITH BROS.
17. “Heading North For The Winter” – THE WELLINGTONS
18. “Where Is Matthew Smith?” – BUBBLEGUM
19. “Point Of View” – CRAIG MARSHALL
20. “Make The Best Of It” – DAVID DEWESE

21. “Patchwork” – DROPKICK
22. “Houses & Homes” – THE BYE BYE BLACKBIRDS
23. “Cathedral Square Park” – THE LACKLOVES
24. “Sunshine Lies” – MATTHEW SWEET
25. “One Small Stepping Man” – ADRIAN WHITEHEAD
26. “Full/Filled” – POPLORD
27. “Beatlesque One” – ALAN BERNHOFT
28. “Our Life” – CHERRYSTONE
29. “Off The Radar” – ALLY KERR
30. “Adrian Bourgeois” – ADRIAN BOURGEOIS

31. “Distant Drumming” – THE BRILLIANT MISTAKES
32. “The World Famous Hat Trick” – VIBEKE
33. “Fast Forward” – ANDY REED
34. “In Rhi-Fi” – THE RHINOS
35. “Modulations” – CHEWY MARBLE
36. “Transatlantic Suicide” – CRASH STREET KIDS
37. “Heaven Is” – ÖYVIND ANDER
38. “Breakfast In Suburbia” – TELEPHATIC BUTTERFLIES
39. “Long Gone And Nearly There” – JULIE OCEAN
40. “Friday Night Lights” – ATTIC LIGHTS

41. “Lurch” – MIKE VIOLA
42. “Grand Archives” – THE GRAND ARCHIVES
43. “Efecto Dominó” – CHETES
44. “Take Me To The West Coast” – JEFF BRUCKNER
45. “Sunday Best” – BRYAN STEPA
46. “Sibley Gardens” – THE RESPECTABLES
47. “Bring On The Happy” – ROB BONFIGLIO
48. “Dot The I” – DROPKICK
49. “The Offbeat” – THE OFFBEAT
50. “Jigsaw Days” – THE WELL WISHERS

51. “Clint Sutton” – CLINT SUTTON
52. “Follow The Summer” – DAVE DILL
53. “Silvervine” - AFTER PILOT
54. “Here We Go” – THE GALAXIES
55. “Goodnight To Everyone” – THE JELLYBRICKS
56. “Addicted To You” – SECRET BEAUTY CREAM
57. “Mosque Alarm Clock” – THE DOLL TEST
58. “Car Guitar Star” – DANIEL WYLIE
59.“Life In The Backseat” – MONKEEMAN
60. “Sweet Action” – THE AFTERNOONS

61. “Horses For Courses” – CLASS THREE OVERBITE
62. “That Evil Drone” – THE RESONARS
63. “Winning By Cheating” – IN ELVIS GARAGE
64. “Eleven Modern Antiquities” – PUGWASH
65. “Ribbon Of Gold” – PAUL COLLINS BEAT
66. “Girls Aliens Food” – THE SIMPLE CARNIVAL
67. “Born Radical” – FRIENDLY FOES
68. “Catnip Dynamite” – ROGER MANNING JR.
69.“Pequenas Coisas Me Fazem Feliz” – RADIOTAPE
70. “Diska” – BOMBONES

71. “Insomniac’s Almanac” – THE CAMPBELL APARTMENT
72. “Wet Behind The Ears” – THE BRASS BUTTONS
73. “Stick With It” – SUZY & LOS QUATTRO
74. “Johnny Cake And Moon Pies” – MARMALADE ARMY
75. “Pop Explosion” – JEREMY
76. “Ground Floor Man” – THE MOP TOPS
77. “Late Night Shift” – INSANITY WAVE
78. “Summerdew Avenue” – THE PENELOPES
79. “Snap, Crackle, Power Pop” – THE MONTGOMERY CLIFFS
80. “Baby Shakes” - BABY SHAKES

81. “Through The Eyes” – THE NAOMI STAR
82. “Baby Warfare” - DELETED WAVEFORM GATHERINGS
83. “Dig The New Sounds Of” – TENNISCOURTS
84. “Freedom Wind” – THE EXPLORERS CLUB
85. “Mountain Rescue” – THE GENERAL STORE
86. “Alto Disco” – AIRBAG
87. “Misled” – TED LUKAS
88. “It’s Ok Say Yes” – SHEBOYGAN
89. “Like The Sun” – LOLAS
90. “Underworld” – PICKPOCKETS

91. “Too Clever By Half” – THE SPONGETONES
92. “Better Times” – FRANK BARAJAS
93. “Whatever Rhymes With Baby” – YUM YUMS
94. “Misadventures In Stereo” – JIM BOGGIA
95. “Cut Your Key” – THE JUNIPERS
96. “SheBANG!” – KELLY JONES
97. “Everybody’s Fault But Ours” – THE POPRAVINAS
98. “Whatever Happened To…” – THE SLIGSBY HORNETS
99. “It Used To Feel So Good” – ANDERS ELOWSSON
100. “Poportunity” - ALLEN DEVINE

TOP 10 EPs de 2008

1. “Midnight Cemetery Rendezvous” – RADIO DAYS
2. “The 4th Italian” – MIRACLE MAN
3. “Lemon Pop” – COOPER
4. “Tempo” – DAYSLEEPERS
5. “Armchair Oracles” – ARMCHAIR ORACLES
6. “Transparent Dayze” – ANGEL KAPLAN
7. “The Going And The Gone” – THE RATIONALES
8. “Let It Split” – THE SCHOOL
9. “The Chemistry Set” – THE CHEMISTRY SET
10. “Six Feet Under” - MEEK

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

"Same Old Story": LANNIE FLOWERS!

Fico imaginando como seria viver em um mundo onde os Beatles fossem os donos soberanos das paradas de sucesso. Como teria sido estar nos Estados Unidos, em 1964, quando os garotos de Liverpool emplacaram cinco canções no top five americano. Era girar o botão do dial do rádio e encontrar gemas pop atrás de gemas pop. Nunca estive nos anos sessenta e certamente não saberemos como foi tal sensação, mas podemos chegar perto com este Same Old Story.

O cantor-compositor americano Lannie Flowers surge, em pleno 2008, como a novidade mais clássica dos últimos tempos. Apesar de ser um veterano – liderou a banda de Dallas The Pengwins, entre fins dos 70 e início dos 80 – não se tinha notícia do artista até Same Old Story. Que na verdade é uma coletânea com canções compiladas de centenas de demos, gravadas por Flowers nos últimos 20 anos (ou mais). Mas a surpresa: as músicas aparecem quase como vinhetas, em versões incompletas que se juntam à faixa seguinte como uma grande colagem pop. Algumas não duram mais que alguns segundos e outras chegam a mais de dois minutos, totalizando 36 faixas.

A nova surpresa: o álbum se torna, talvez, a maior coleção de melodias memoráveis, refrões ganchudos, pegadas energéticas, harmonias perfeitas, hits pop, reunidas em um só disco, da história do power pop. É uma sucessão de canções pop tão preciosas, que dá até raiva quando a música não se completa e já pula para a seguinte. É a sensação que não tivemos, porque não existíamos, nos anos 60: ouvir Same Old Story é como se estivéssemos com os dedos no dial de um rádio daquela época e fossemos mudando de estação; hit sobre hit e uma seqüência interminável de músicas contagiantes. Com a diferença de ser sempre o mesmo artista.

E, claro, Flowers se inspirou nos heróis dos 60 e 70, como Beatles, Who, Kinks, Badfinger, Big Star, Raspberries, Elvis Costello, para compor clássicos que podem durar 30 segundos e nunca mais sair da sua cabeça. Porque, mesmo Lannie gravando tudo em sua garagem, impressiona a destreza do músico em criar as sonoridades exatas do power pop perfeito. As timbragens dos instrumentos, os caminhos melódicos, os encaixes dos refrões, os tempos das harmonias vocais, a maestria na montagem ‘verso-refrão-verso-ponte-refrão’.

Depois de algumas audições, a proposta de Flowers, em colocar faixas curtas com cara de não-terminadas, começa a fazer sentido. Porque o cerne das canções está lá. O riff potente e adesivo; que abre passagem para a melodia contagiosa; que entrega de bandeja o refrão autocolante - que gruda na sua memória afetiva... Aí, começa aquele processo, em que antes de terminar uma faixa você já consegue se lembrar da próxima, e depois da próxima, não importando se são... 36 músicas!

Por isso mesmo, é tarefa ingrata, quase impossível, destacar faixas em Same Old Story. De qualquer forma, há uma seqüência espetacular, logo no início do álbum, marcada por algumas da melodias/refrões mais envolventes da década: “Circles” – “Another Weekend” – “Tired Of Being Alone” – “Something Happened” – “Everywhere I Go” – “Give Me Chance” – clássicos instantâneos e, agora, eternos. “Our Home”, por exemplo, é só um belíssimo refrão. “I Wanna Be The One” emula Bob Dylan até bater em um chorus tão celestial quanto pop. “You Said Goodbye” precisa de um minuto e quarenta segundos para mostrar todos os ingredientes de uma canção radiofônica perfeita e ser melhor que 99% de tudo que tocou nas rádios em 2008.

Outra peça que com menos de 20 segundos cativa com suas harmonizações vocais dos céus: “Nothing New”. E, seria possível uma música de 30 segundos ficar decalcada por meses no cérebro? Experimente “Turn Off The Night”. O clima emocional e pegada power em “By Your Side” antecede a incrível pérola pop “You Said”, que mesmo com menos de dois minutos consegue encaixar seu ‘verso-refrão-ponte’. O mesmo se pode dizer de “You, Yeah You”, só que essa não passa do um minuto e vinte. Sempre com temas que abordam relações frustradas, cartas de amor juvenis, o romantismo de uma época da vida que não volta mais.

“Thanks A Lot For Nothing” remete às baladas beatle, de beleza única e notas de piano duelando com as guitarras. Depois, mais um clássico imediato: “Thing For You”. Será mesmo que ninguém tinha pensado nessas melodias? A incredulidade bate forte: como Lannie não usou essas canções antes, como as deixou empoeirando em baús no porão de casa? Muitas delas seriam hits, seriam número um, paradas pelo mundo afora. Não hoje, onde a realidade da indústria musical está de ponta cabeça. “You’re Not Going Anywhere”, por exemplo, poderia ter chegado lá. Já a linda “You Wanna Be Free Again” poderia ensinar ao Oasis atual, como emular a fase psicodélica dos Beatles sem deixar de ser pop. E assim segue a sensacional coleção de canções/vinhetas/colagens/refrões de Lannie Flowers.

Com quem, aliás, estive em contato para ver a possibilidade do lançamento de um futuro álbum coma as versões completas de pelo menos 15 das canções de Same Old Story. Para isso, pedi a fãs do disco que fizessem suas listas. As mais votadas encaminhei a Lannie, que disse ser uma possibilidade real que as escolhidas virem um álbum cheio. E, sem dúvidas, mesmo não sendo um disco de canções completas, estamos diante do “álbum do ano”, e possivelmente um dos melhores da década. Agora, quando me perguntarem “o que é power pop”, a resposta será: “Same Old Story”.

www.myspace.com/lannieflowers

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

"Tempo": DAYSLEEPERS!

Olhando em retrospecto, e com a perspectiva histórica devidamente calibrada e estabilizada, não poderia parecer surpresa. Mas não se trata, somente, de atestar a relevância e força replicadora do pop sessentista através do tempo. Muito menos de colocarmos na mesa o fato de o passado – os legados, as experiências – estar ali, à distância de um clique no computador.

O que impressiona aqui é o encontro surpreendente no espaço-tempo que se dá de forma assombrosamente natural. O rio Mersey que sopra macio suas harmonias até as águas do rio Sergipe. As melodias californianas que brilham plenas nas areias brancas de Aracaju. E os meninos inquietos que querem soar doces e agradáveis, chegar perto do belo e celestial através de adoráveis canções.

A rebeldia juvenil de Arthur Matos, Lelo Soares, Marcel César, Ravy Bezerra e Rafael Eugênio, não é chocar com a distorção mais pesada, os gritos mais agudos ou a bateria mais nervosa. É se apresentar como uma banda sergipana e não tocar forró. É vir do nordeste e não se atolar em regionalismos de manguezal. É serem pós-adolescentes da era digital interessados em sonoridades clássicas e atemporais.

É por isso que quando a faixa título “Tempo” soou nas ondas da rádio Cultura FM, em uma noite chuvosa de Brasília, disse um ouvinte: “não sabia que bandas nacionais faziam esse tipo de som...”. E isso não foi como dizer “eu não sabia que o rio Sergipe era afluente do rio Mersey”. Foi muito mais como “eu nunca imaginei que a garota de Ipanema ouvia Beatles e Beach Boys...”.

Porque é disso que se trata o EP debute do quinteto de Aracaju: a confecção de canções de melodias doces e ao mesmo tempo emocionais; a lapidação de harmonias vocais intrincadas para adornar peças sonoras pop; e a expectativa única de levar ao ouvinte a sensação elevada de bem-estar. Se a herança sessentista de Beatles, Beach Boys, Byrds e Zombies imprime forte marca no trabalho autoral do Daysleepers, os ecos reprocessados e modernizados daquela época pelos Wondermints, Travis, Nelson Bragg e outros, também influenciaram a feitura de “Tempo’.

Dos céus verdes da capa do EP desce a cítara indiana que se condensa em violões na entrada da faixa título. Logo depois, órgãos são cobertos por harmonias vocais até os falsetes de Arthur no inspirado refrão – que remete aos mestres do pop psicodélico Olivia Tremor Control e Sunshine Fix. A contagiante “Na Sua Janela” mostra o capricho dos rapazes nas harmonizações de voz e a climática “Velha Estante” valoriza o encanto melódico do pop barroco aprendido com os fundamentais Zombies.

“Do Outro Lado” continua exibindo a riqueza harmônica do Daysleepers, em atmosferas de sonho que orgulhariam Brian Wilson. E a beleza profunda e reflexiva de “Cidades Coloridas”, que em meio aos descaminhos e a solidão encontra uma ponta de esperança disfarçada em “tchu-tchus” altamente pop. O ingênuo e sincero amor colegial aparece na singela “Aos Dez Anos”, exaltando o poder atemporal que uma canção pode ter.

Porque, no fim das contas, não interessa de onde ou quando vêm as mais bonitas canções, e sim o bem que elas podem te fazer. Que o álbum cheio dos meninos de Aracaju venha recheado delas, pois o mundo ainda não pode prescindir do valor curativo de uma simples canção pop.

Para baixar o EP:
http://www.ladonorte.net/netlabel/net-daysleepers.html

www.myspace.com/daysleepersbr

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

"High Five": THE PRIMARY 5!

Não viveremos o suficiente para saber. Quais os parâmetros divinos para distribuir os talentos sobre a Terra? Ou qual o porquê de, não raro, serem utilizados métodos tortos ou aparentemente sem lógica. Veja o caso de Paul Quinn: ex-baterista do Soup Dragons - que teve ao menos um hit mundial com “I’m Free” – e que depois conseguiu entrar na sua banda preferida, o Teenage Fanclub. Com eles gravou pelo menos um disco clássico, Grand Prix. O que parecia um conto de fadas – e que na verdade é uma estafante rotina de shows e mais shows - acabou cansando o escocês, que resolveu sair do grupo e... virar carteiro! Por um ano, Quinn percorreu as ruas de Glasgow, entregando correspondências e, provavelmente, tomando corrida de cachorros mau-humorados.

Até então, Paul não havia composto uma só canção. Simplesmente porque nem tocar uma guitarra sabia. Sabia-se, sim, de seu talento como baterista e que havia decidido abandonar a carreira musical. Aí a reviravolta: farto da vida de carteiro – que na verdade é uma rotina estafante de entregas e mais entregas - Paul voltou aos braços da música. Aprendeu guitarra, passou a cantar e compor. Simples assim. Quinn havia sido escolhido para receber o dom da composição pop. E precisou de anos e desafios para encontrá-lo onde sempre esteve: guardado em si mesmo.

Então, formou o Primary 5 e, já no primeiro disco North Pole, despontou como um talentosíssimo compositor de canções perfeitas. Claro, a convivência por anos com mestres como Norman Blake, Gerard Love e Raymond McGinley ajudou a desvendar alguns meandros e segredos da feitura de uma boa canção pop; mas nem de longe foi essa oportunidade que forjou o compositor que havia latente em Paul.

Depois do segundo disco, o também aclamado Go, o músico novamente surpreendeu e anunciou o fim do Primary 5. Mas não deveria haver surpresas quando se trata de alguém que saiu do Teenage Fanclub para ser carteiro. Por isso, enquanto o mundo do power pop ainda lamentava a morte precoce de uma das bandas mais amadas do estilo, Paul avisou: “estou gravando o novo disco do Primary 5”. E aqui chegamos a High Five.

Não há dúvidas que o álbum anterior Go é mais vibrante, com capacidade de contágio imediato. Já High Five, é de uma beleza mais sutil, porém profunda. Quinn está mais contemplativo e introspectivo (o que pode ser um indício de uma nova mudança radical à vista...). E apesar da forte presença de dois fannies na gravação do disco – McGinley foi o engenheiro de som e Blake assumiu as guitarras em “Rewind” – High Five se distanciou levemente da sonoridade do Teenage Fanclub. Já a participação de Jim McCulloch - que toca guitarra em todas as faixas, menos na que Blake tocou - pareceu muito mais influente, aproximando, em certos momentos, o Primary 5 da sua banda, o The Green Peppers.

Não se pode sentir e interpretar High Five na primeira audição. Você vai de peito aberto e cheio de expectativas – impressas na memória afetiva pelos álbuns anteriores - esperando pelos mesmos truques, mas, de repente, se depara com texturas diferentes e intenções, de certa forma, que exigem um passo à frente. A sensibilidade deve estar à flor da pele, para se igualar ao estado mais elevado que Quinn se encontra. A sutileza está em cada acorde, em cada timbre. A voz de Paul vem envolta eu uma aura de leveza e candura. E o pop perfeito permanece soberano em todas as canções.

“I Wonder Why” é talvez é mais emblemática das canções em High Five, por refletir fielmente o clima do disco: não salta aos ouvidos à primeira vez, mas vai sendo processada a cada nova audição, como se fosse envelhecida em tonéis de carvalho, até chegar ao seu ponto perfeito. Macia, doce, e com um refrão lapidado por uma maestria admirável. Segue-se a canção título, produto da fina ourivesaria pop de Quinn e, “So Much To Find”, confirma as expectativas de novas mudanças no horizonte: Paul afirma que “ainda há muito para aprender, muitas outras coisas para fazer”. Ele diz que é um desejo que “aflige a alma...”.

“Same Old Story” é um belo western, onde Quinn parece tocar sua guitarra acústica com o pé apoiado na porteira, enquanto observa o sol se por no horizonte quente e poeirento. Mas, como artesão pop, não se esquece dos “na-na-na-nas”, em canção claramente influenciada pelo Green Peppers de McCulloch. “Breathe” segue no interior americano, com seu folk-country-pop. Em “Lost And Confused”, Paul inverte os papéis e se coloca no lugar de um fã que encontra o ídolo: “Hey man, it’s so good to meet you/I love your records/I love your songs”. O power pop corre solto e o solo de guitarra é puro Teenage fase Bandwagonesque.

“Rewind” traz a colaboração de Norman Blake na guitarra psicodélica e carimba o refrão com melodia de contágio universal. “Fly Baby Fly” e "Stills” mostram que Paul também aprendeu algumas notas ao piano para adornar e aumentar a sensação de bem-estar que trazem suas canções. A contemplativa “Trains”, embalada por coros quase gospel, encerra High Five e nos deixa um pergunta: qual o próximo passo da mente criativa e irriquieta de Paul Quinn?

P.S: Pois aí está: Paul acaba de anunciar, em seu MySpace, que o Primary 5 chega ao fim, outra vez. Mas agora de forma irreversível, por motivos pessoais. Quinn ainda fará três shows na Espanha, em Janeiro, que serão como a despedida final. A resenha acima, escrita cerca de um mês atrás, soa como um vaticínio, confirmado nas palavras de Paul: "Então é hora de seguir em frente, aprender a tocar piano, aprender como gravar um disco em casa, compor canções como se fazia no passado e deixar o mercado da música para os garotos que almejam as estrelas."

www.myspace.com/theprimary5

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

"Summerdew Avenue": THE PENELOPES!

Não é segredo a fixação dos japoneses pelas melodias açucaradas do pop ocidental. Que agora, com o processo da mundialização – onde gostos e costumes se uniformizam – nem podemos mais rotular de “pop ocidental”. É pop e ponto. Pop que fascina a mente criativa do músico japonês Tatsuhiko Watanabe, líder do The Penelopes e dono do selo Vaudeville Park. Com a ajuda da baixista Chigusa Miyata, Watanabe chega ao sétimo álbum com o Penelopes. E como já não nos é novidade, aqui ele compôs, produziu e gravou todas as faixas.

Watanabe é um grande conhecedor de música pop – dos anos 60 aos dias atuais – e essa bagagem de informações e referências, se reflete claramente no som do Penelopes. Com uma interessante mescla de sonoridades dentro de uma mesma canção. Vai de Beatles e Badfinger a Smiths e Squeeze; pode passar por Zombies e Beach Boys e desembocar sem escalas, em Fountains Of Wayne e Aimee Man.

“Melt The Snow”, faixa de abertura de Summerdew Avenue, tem sintetizadores e guitarras oitentistas, um órgão sessentista e um refrão adesivo em qualquer época. “1983” tem algo de indie pop dos noventa e uma cara power pop oitentista nas melodias. “Colour Shades Of Summer” volta aos sessenta na pegada pop, apesar dos dedilhados de guitarra ecoarem timbre vindos dos oitenta. “Gentians” soa Burt Bacharach e a contagiante “Light And Shade”, parece um mega-hit perdido em uma rádio de flashbacks. A envolvente “Rock Soles Garden”, encerra o álbum com seus metais setentistas, harmonias vocais angelicais um refrão auto-adesivo na melhor escola sixtie pop.

www.myspace.com/thepenelopesvaudevillepark
www.jttk.zaq.ne.jp/penelopes/

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

"Kai Reiner": KAI REINER!

Desde que a música pôde ser transformada e comprimida em um arquivo virtual, foi inevitável a perda de um certo valor emocional. Compartilhar música passou a ser dividir arquivos trocados via computador. A facilidade vulgariza e desvaloriza. Mas Kai Reiner ainda acredita que compartilhar música seja dividir emoções. Não importa se o músico alemão esteja na sua Hamburgo natal e você a mais de dez mil quilômetros dali. Importa os quatro anos que Reiner passou da sua vida preparando este álbum para partilhar com você. Anos polindo peças sonoras, embalado pelo sonho da canção pop perfeita que começou num show de Brian Wilson.

Kai compôs e produziu todas as faixas. Tocou as guitarras, o baixo e a bateria, e cantou com uma paixão pela melodia que transborda. Se a gravação soa caseira, as composições se sobrepõem pela força da inspiração. Porque Kai quer compartir as boas sensações, quer fazer voar o sentimento de bem-estar pelas milhas que a distância agora não pode separar. E até a força da imagem tem o que dizer: a capa do álbum traz uma Rickenbaker – com o nome de Kai Reiner gravado – sobre a grama verde banhada pelo sol. Isso já sugere muito dos sons que estarão contidos no álbum. Sugere que em terras frias, nem só os pássaros querem o sul para se aquecer.

E é exatamente isso que Kai começa dizendo na sensacional canção de abertura “Cold Summer”: “vamos pagar um avião para qualquer lugar/eu quero sentir o brilho do sol em meus olhos/aqui o verão é frio”. Palavras imersas em um clima de beleza melódica indescritível, as guitarras brilhando em intenso jingle-jangle, e a voz de Reiner doce como um pote de mel. Fãs de Teenage Fanclub terão uma síncope! Clima mantido na belíssima “Only We Both Now”, melodia celestial - ouça de joelhos, agradecendo aos céus pela oportunidade – e riff de guitarra memorável. “Hey K” confirma a sensibilidade do alemão para forjar canções pop fortes e emocionais

Essa é atmosfera: riffs explodindo sobre melodias pop impressionantes, com a sonoridade Rickenbaker adornando o sempre ambiente emotivo. Seja em “I Don’t Want Your Crown”, “It’s Okay” ou “Are You Okay”. É a contraposição para que o power pop saia perfeito: guitarras incisivas, bateria vigorosa e sem firulas, riffs fortes, melodias adesivas e vocais harmônicos e amigáveis - “Brown Eyes”, “Roll On The Holidays”, “Know You Now” são protótipos. Para atingir as fibras do coração, os dóceis acordes de “Emily”. Na faixa de encerramento “Shine”, Kai Reiner pede a Deus que, no dia em que partir, ter tido a chance de ficar na memória daqueles que conheceu. Depois deste disco, ele não precisa mais pedir.

www.kaireiner.com
www.myspace.com/kaireinermusic

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

"Distant Drumming": THE BRILLIANT MISTAKES!

Viver imerso no caos urbano, de corridas desenfreadas e neuróticas contra o tempo e a mercê de encontros e desencontros, pode resultar em duas coisas. Ou você fica insensível e cada vez mais distante dos pequenos prazeres que te fazem humano, ou busca, vez por outra, desligar a tomada que te conecta às paranóias da vida moderna. Os novaiorquinos Alan Walker, Erik Philbrook e Paul Mauceri se decidiram pela segunda opção. O trio que forma o The Brilliant Mistakes, recriou, no estúdio em plena Manhattan – insone metrópole financeira pós-moderna – sonoridades que mesclam as raízes interioranas da América com os ecos atemporais do pop sessentista.

Se lá fora ambulâncias esbaforidas disputam uma guerra de decibéis com histéricas sirenes policiais, aqui dentro órgãos Hammond B3 competem com pianos Fender Rhodes para ver quem embeleza mais uma canção. Se lá fora aparatos cibernéticos de inteligência artificial são anunciados em telas-monstro de LCD, aqui dentro mãos humanas balançam chocalhos e agitam tamborins. Distant Drumming reprocessa influências e referências – utilizando-se de uma profusão de instrumentos vintage - e trafega do country-folk-americana ao sixtie pop, com leveza e maestria.

A acústica “The Day I Found My Hands” abre o disco com seu acento folky-country, emoldurando a doce melodia com órgãos e guitarras de doze cordas. “Monday Morning” segue no clima ‘roots’, remete a Crosby, Stills, Nash & Young e capricha na participação do clássico piano elétrico Wurlitzer. A maciez envolvente - ao som de bongôs, órgãos e pianos - encontra as harmonias vocais perfeitas, à la Beach Boys, em “Becoming’. Já “Good Year For a Change” é guiada pelo piano em balada com sabor de Beatles; e as teclas de Hammonds B3 e Auroras Classic duelam com a linha de baixo sinuosa em “The Circle’s Not Broken”.

Para relaxar e sonhar, como o som da água quando cai, o doce órgão Farfisa pontua sobre a emotiva melodia vocal de Walker e os passos suaves do mandolin, em “Water Fallin Down”. Batida contagiante e emocional na canção ao piano que tem poder para fazer chorar o sorrir ao mesmo tempo: “The Words”. Enquanto “Time In The Night” prova que o Brilliant Mistakes sabe onde atacar com um órgão Hammond para potencializar seu apurado senso pop. Belos acordes e melodia memorável, no country-pop acústico “Let’s Pretend”, antecipam a climática balada que fecha o disco “Wake Up Heart”.

Pela janela, Walker, Philbrook e Mauceri enxergam uma imensa e dourada plantação de trigo... na paisagem onde florescem frios e infinitos arranha-céus de vidro, concreto e aço.

www.thebrilliantmistakes.com
www.myspace.com/brilliantmistakes

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

"Sweet Psychedelic Orange": A Wordwide Pop Compilation!

Reunindo 15 bandas de diferentes cantos do mundo, a compilação - lançada pelo selo japonês Vaudeville Park (de Tatsuhiko Watanabe) - privilegia a presença de novos grupos, mas conta também com a participação preciosa de alguns veteranos. Apesar do nome, a coletânea não é uma coleção de canções psicodélicas. A exigência aqui é uma só: soar agradavelmente pop.

O grupo inglês de Leeds, The Ace, inaugura a compilação com a contundente “Adamantine Sorceress Of Ecstasy” unindo pop e punk. Monsiur Mo Rio é sinal dos (novos) tempos soando tempos passados: alemães que cantam em inglês e amam bossa nova. E sua “There Isn’t Any Truth” uma adorável e perfeita pop song. Os americanos do Music Lovers contribuem como pop sofisticado “Alan Lake” e os japoneses do Sloppy Joe mostram o elegante twee pop “Anyway”.

O mestre da canção pop, e líder do The Jetset Paul Bevoir, traz a gema pop “His Number One Fan” e os ingleses do Fiel Garvie comparecem com o pop climático e moderno “The Palace Lights”. O britânico Mr. Wright soa como algo entre Serge Gainsburg, Lou Reed e Pulp, na faixa “I Wish I Had A Girl Like You” e o Penelopes, em “Trick Of The Light, soa como em seu último disco: sempre homenageando os heróis do pop atemporal. Da Suécia o Achordian apresenta sua placidez acústica em “The Day That The Town Finally Died”. Fecha a coletânea o pop sessentista, memorável e doce “Julie Barber”, do incrível Rinaldi Sings.

www.myspace.com/thepenelopesvaudevillepark

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Da Série CLÁSSICOS: "Epiphany" - POP IS ART!

Por Daniel Arêas

Epifania é um momento de clarificação com relação a algo. Significa uma súbita iluminação (para muitos, de caráter divino, espiritual) que permite ao indivíduo uma total compreensão de alguma coisa. E é também o título (Epiphany) do terceiro disco da série Clássicos do PPS. Embora o título a princípio se refira a um importante trecho do álbum, não seria difícil imaginar que também esteja relacionado à própria decisão do cantor/compositor/multiinstrumentista Scott McGinley – o homem por trás do nome do projeto, PoP is ArT – em gravar o disco.

O americano Scott McGinley é um veterano músico, tendo feito parte de bandas como The Insiders, Bliss e New Religion, e chegou a atingir grande sucesso na Ásia (maiores informações sobre sua carreira, nos comentários). Em determinado momento de sua vida, se viu diante de dois caminhos a seguir: repetir (como músico, compositor e performer) a fórmula que indiscutivelmente vinha dando certo, ou expandir seus horizontes e realizar um trabalho em que realmente pudesse dar vazão a toda sua criatividade e talento. A epifania de Scott pode ter se dado aí: perceber que o que o faria feliz era realizar um trabalho livre de quaisquer amarras impostas pelo mercado. Um trabalho, enfim, no qual ele se fixaria apenas na sua arte.

E assim nasceu o PoP is ArT (titulo que é auto-explicativo). O que Scott não poderia prever é que faria um dos maiores discos da década (não apenas no universo do power pop, mas no da música como um todo). Os diversos temas e estados de espírito que surgem em seu disco – do bom humor à melancolia e reflexão, do mais puro romantismo à espiritualidade – ultrapassam os limites convencionais do power pop, assim como as influências que nortearam sua criação (às inevitáveis inspirações em Beatles, Beach Boys, Kinks, Cheap Trick, unem-se às referências de ELO, Pink Floyd, Supertramp). Toda essa miscelânea resultou numa obra verdadeiramente de gênio – e sem deixar de ser pop em instante algum. Todas as informações que constituem o background das canções, narrados nessa resenha, foram extraídas do site do PoP is ArT (o endereço está no fim do texto).

A abertura de Epiphany, “All I Know”, é não menos que sensacional. Inicia com a ótima voz de Scott acompanhada de guitarras afiadas, evocando o Cheap Trick. Se assim permanecesse até o fim, já teríamos uma faixa de abertura de respeito, mas Scott quer mais. Subitamente, somem as guitarras e surge um interlúdio composto por timbres e harmonias vocais típicas dos Beach Boys. O ouvinte ainda se surpreenderá, em seguida, com a volta das guitarras, mas o melhor fica para o final. A junção de orquestrações com a paulatina entrada das guitarras e da bateria, com Scott repetindo indefinidamente o refrão, remete aos melhores momentos do ELO.

Essa é apenas a primeira música de Epiphany, e seria o ponto máximo de milhares de álbuns. O ouvinte, se fizer a (equivocada) associação do termo “pop” à mediocridade que impera nas rádios de hoje, poderá até pensar que o “pop artístico” a que Scott se propôs tem essas características: arranjos ricos e elaborados, longas canções compostas por vários trechos... mas, essa suspeita, se dissipará assim que surgirem os primeiros acordes de “Let Me Be The One”.

Ali, na posição dois do álbum, onde costumam ficar os primeiros singles dos discos (mera coincidência?), está a melhor canção pop que você, caro(a) leitor(a), ouvirá em muito tempo. Contrastando com a faixa de abertura, “Let Me Be The One” (dedicada à esposa de Scott, a também cantora e compositora Vicky McGinley, nascida em Taiwan) é de uma singeleza quase desconcertante – mas de forma alguma inferior por isso. Nela estão todos os elementos da clássica canção pop perfeita: melodia apaixonante, refrão pegajoso com belos versos românticos (“Let me be the one who brings you running/Let me be the one who’s always there/I’ll be the one to lend my shoulder/When you can’t find someone who cares/Let me be the one”) palminhas no fim ao ritmo da música... enfim, fica o conselho: não ofereça resistência, porque será impossível não se sentir contagiado.

“Are You A Boy Or A Girl”, uma bem-humoradíssima canção, de versos hilários (“Don’t get me wrong from my question/And I don’t mean this to be rude/It’s not some kind of intervention/But I can’t tell it from your shoes”) é British Invasion até a medula: se inicia evidenciando a influência de bandas como Kinks ou Small Faces, no refrão segue a tendência de alternância de ritmos, lembrando Beach Boys/Zombies.

A linda “Here Comes The Music”, canção de base acústica, repleta de harmonias vocais simplesmente deslumbrantes, trata do bloqueio criativo que volta e meia acomete artistas, mas também, e principalmente, da mágica que a música é capaz de proporcionar. O título da canção, porém, tem por trás uma tocante história, novamente ligada a Vicky. Conta Scott que no início do relacionamento dos dois, quando então Vicky ainda estava aprendendo a falar inglês, ele compreendeu quando em uma ocasião ela disse “comes the music” – significava que ela estava pedindo a ele que colocasse algum CD para tocar. Certamente esse background emocional contribuiu para que “Here Comes The Music” saísse tão bonita.

A partir daí, inicia-se o que Scott chama de “lado conectado” do álbum, em que todas as canções possuem alguma ligação entre si. O bom humor e o romantismo das quatro primeiras canções dão lugar a temáticas mais densas, profundas. A ótima “Misled” (canção beatle por excelência, parecendo ter sido extraída do Abbey Road ou White Album) aborda o tema do sentimento de solidão, mesmo estando deitado ao lado de uma pessoa. “Higher” – cujo tema é a auto-medicação para fugir dos problemas da vida e dos relacionamentos fracassados – é outro esplêndido momento do álbum, iniciando de uma forma (o tom baixo, quase sussurrante da voz de Scott e o dedilhar do violão sugere uma canção aos moldes das de Elliott Smith) e encerrando de outra forma completamente diferente (com um magnífico solo de guitarra que David Gilmour poderia perfeitamente ter assinado).

Enquanto o solo de guitarra vai lentamente sumindo, outro assunto caro ao álbum vai sendo introduzido: a espiritualidade, através da breve “Father Father”, na qual o personagem da canção diz repetidamente “Father Father/I’ve lost my way”, até desembocar em harmonias vocais verdadeiramente celestiais. Há um breve hiato, ocupado pela triste – porém bela - “The Other Side (A Requiem For Phebe)”, canção que provoca lembranças de Paul McCartney, até que “Father Father” reaparece. Só que, desta vez, trazendo a redenção do narrador, que decide então “abraçar” a espiritualidade para tentar se salvar (“Father Father/Help me find my way”) e colada a “Wake Up!”, onde os instrumentos básicos do rock convivem harmoniosamente com orquestrações. Fecha-se então mais uma memorável sequência do disco. Mas ainda não é o fim...

Scott ainda consegue nos surpreender com a soberba “Angry Young Man/Averice/Angry Young Man”, que com seus quase nove minutos de duração pode ser considerada a canção “épica” do disco, mas não apenas por sua duração. É mais uma canção de redenção, de clarividência, de descoberta do real sentido da vida – de epifania, enfim. Embora o primeiro trecho de “Angry Young Man” se inicie nos moldes de uma típica música do Pink Floyd, as mudanças de andamento na canção, como um todo, remetem ao Supertramp.

Aqui, Scott assume o papel de um jovem que acredita que a felicidade pode ser comprada, através da obtenção de bens materiais, mas que começa a se questionar (“But I was such an angry young man/Could life work like out I planned?/Could I ever be satisfied? (Was I wasting my time?)/But I remained an angry young man”). Já no trecho seguinte, “Avarice” (que se inicia no mesmo tom do trecho anterior, mas que paulatinamente vai ganhando em peso e energia, até se tornar o momento mais heavy do álbum) Scott se posta como observador do momento de iluminação, da tomada de consciência, por parte do “jovem raivoso”, de que a felicidade reside dentro de nós, e tem a ver com dar, e não receber – observador de sua epifania, em resumo. E na reprise de “Angry Young Man” – novamente cantada por Scott na 1ª. pessoa - o personagem da canção confirma seu momento de realização (“I was such an angry young man/A fools parade for the angry young man/Say Good-bye for the angry young man”).

Para Scott, mesmo nos momentos difíceis, tudo acaba bem. E ele não deixa qualquer dúvida quanto a isso com a entusiasmante “Smile!”, a canção que fecha o disco. Sobre uma cama de teclados e arranjos sinfônicos acompanhando baixo, guitarra e bateria – novamente tendo o Supertramp como referência – os versos do refrão não poderiam ser mais diretos: “Things will get better/Stand up in style, don’t you know it’s gonna be alright/Get up & smile, cause everything is gonna be just fine”.

Pop é arte, afirma Scott McGinley. Mas ele afirma que o pop é intrinsicamente arte, seja de que formato for – isso ele deixa claro ao unir num mesmo álbum canções como “All I Know” (com diversas mudanças de andamento, arranjos ricos e variados) e “Let Me Be The One” (encantadoramente simples, contando apenas com os básicos instrumentos do pop-rock e cativantes versos diretos e românticos). É aí que reside a genialidade de sua obra. Mesmo nas canções mais sofisticadas, tocando em temas mais profundos e sérios, Epiphany provoca todas as reações que um clássico disco pop deve despertar no ouvinte, do primeiro ao último minuto: sensações de bem-estar, prazer, diversão, alegria, otimismo. Se a decisão de criá-lo foi resultado de sua epifania, que mais e mais artistas passem por esse momento de iluminação, para ganharmos mais obras-primas como esta.

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