terça-feira, 15 de março de 2011

"Time Will Tell": DAVE STEPHENS!

Quatro anos foi o tempo que o cantor-compositor canandense Dave Stephens nos deixou sem novas canções, desde o belo Stories For Copper, lançado em 2006.

Álbuns de Stephens são sempre sequências de peças emocionais que alternam alegria e tristeza, mas que se preocupam em preservar, intacta, a beleza.

Como nos trabalhos anteriores, em seu terceiro álbum Time Will Tell Dave Stephens compôs, tocou e cuidou dos arranjos, com a presciosa e precisa colaboração de alguns bons amigos. Também manteve a independência para deixar voar livre sua delicada inspiração artística.

“Time Will Tell” abre o disco com orquestração, piano, guitarras distorcidas, jogando no ar a sugestão para o clima épico e emocional. Cordas de violino choram e a voz doce de Stephens comanda a explosão instrumental emendadando direto no riff pesado da canção seguinte “Mr. Wonderful”, que daságua, mais à frente, na melancolia espacial de “Hagin’on”.

As guitarras falam alto novamente na encorpada e sólida “Tragedy” e, a esperada capacidade de Stephens em escrever as mais belas baladas, reaparece na emocionante “Peace Of Mind”. O refrão fácil e empolgante vem em “You Are Mine, I Am Yours”, enquanto a maciez acústica de “Dealing With The Past” traz junto um belíssimo chorus.

E o que Time Will Tell tem a dizer, aqui e agora, é que Dave Stephens continua disposto a compartilhar a corrente de emoções que emanam de sua música e reverberam em nossos corações.

http://www.davestephens.ca/

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

TOP 50 Álbuns de 2010

1 – “Lies And Fairy Tales” – SECRET POWERS
2 – “Watercolor Day” – SETH SWIRSKY
3 – “Music From & Inspired By Noisewater” – TIMMY SEAN
4 – “The Decline” – ELVYN
5 – “Our Little Secret” – EDWARD O’CONNELL
6 – “Blood/Candy” – THE POSIES
7 – “Circles” – “LANNIE FLOWERS
8 – “Oranjuly” – ORANJULY
9 – “C’est La Vie” – RADIO DAYS
10 – “Memphis” – MAGIC KIDS

11 – “Grain & Grape” – TAYLOR LOCKE & THE ROUGHS
12 – “Graydon” - GRAYDON
13 – “No Chocolate Cake” – GIN BLOSSOMS
14 – “Travellers In Space And Time” – THE APPLES IN STEREO
15 – “Shadows” – TEENAGE FANCLUB
16 – “Farrah” – FARRAH
17 – “Epic Handshakes And Bear Hug” – WILD HONEY
18 – “In The Sun” – THE TIMETRAVELLERS
19 – “Fulton Hill” – KNIT DELICATE
20 – “Innocence Is Bliss” – FRANK ROYSTER

21 – “Todo Se Lo Lleva El Viento” – OCTUBRE
22 – “Weird Past” – MAYBE TONIGHT
23 – “Hula” – NUSHU
24 – “Mercury Mine” – GAVIN GUSS
25 – “Once Around” – THE AUTUMN DEFENSE
26 – “Starting All Over Again” – RICH MCCULLEY
27 – “The Sunrise And The Night” – WILLIAM DUKE
28 – “On A Bittersweet Ride” – MISS CHAIN & THE BROKEN HEELS
29 – “Looking For Tomorrow” – THREE HOUR TOUR
30 – “King Of Power Pop” – PAUL COLLINS

31 – “Goodbye, Killer” – PERNICE BROTHERS
32 – “Take A Vacation!” – THE YOUNG VEINS
33 – “Sweet Sounds Of” – THE SUGAR STEMS
34 – “Loveless Unbeliever” – THE SCHOOL
35 – “Ordinary People” – ZOMBIES OF THE STRATOSPHERE
36 – “In Love Field” – THE OFFBEAT
37 – “Release Me” – THE LIKE
38 – “The Britannicas” – THE BRITANNICAS
39 – “Wasted Sun” – ANY VERSION OF ME
40 – “Together” – THE NEW PORNOGRAPHERS

41 – “Pictures” – THE LEN PRICE 3
42 – “Green Fields And Rain” – THE JUNE
43 – “School Days” – THE BAUDELAIRES
44 – “Four” – BLEU
45 – “Pas Net!” – TRUE LOVE
46 – “Galaxyland” – MAPLE MARS
47 – “Time Will Tell” – DAVE STEPHENS
48 – “Deer Park Mirage” – MITTENS
49 – “Intenciones” – COLATONIC
50 – “Post Modern Romantic” – THE WELL WISHERS

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Power Pop: The Early Years - BLUE ASH! (Parte 2)

Por Daniel Arêas

Para ocupar o posto deixado vago por David Evans, os membros remanescentes do Blue Ash (Frank Secich, Jim Kendzor e Bill Bartolin) recrutaram Jeff Rozniata, um dos roadies da banda. Mesmo sem gravadora, a banda seguiu fazendo shows e gravando canções, até que em 1977 a Playboy Records ofereceu-lhes um contrato. Em outubro daquele ano foi lançado Front Page News, o segundo disco do Blue Ash. Estritamente sob o ponto de vista das composições e da forma com que foram gravadas, era consenso na banda que Front Page News era um ótimo disco de rock. Mas o disco entregue à Playboy Records para ser lançado jamais chegou a ver a luz do dia.

Sem o consentimento da banda, a gravadora contratou Mike Lewis (conhecido pelo seu trabalho com K.C. and the Sunshine Band) para adicionar cordas, metais e teclados às canções. Os próprios membros da banda só vieram a conhecer a versão alterada do disco que iria às lojas poucos dias antes do lançamento. A revolta de Secich, Kendzor e Bartolin fez com que a Playboy Records eventualmente re-mixasse o álbum, e o resultado final ficou a meio caminho entre a versão “suavizada” por Mike Lewis e a originalmente imaginada pela banda. Mas mesmo com as guitarras disputando espaço com as cordas e teclados na maior parte do disco, a qualidade das composições se impunha. Tal como foi lançado, em outubro de 1977, Front Page News sem dúvida era um digno sucessor de No More No Less.

E tudo indicava que o momento do Blue Ash havia chegado: puxado pelo ótimo single “Look At You Now”, o disco começou a vender bem. A banda preparava-se para iniciar uma turnê pelo estado do Texas, quando então sofreu um duro golpe: a Playboy International decidiu desativar a Playboy Records, deixando o Blue Ash novamente sem uma gravadora. A banda seguiu fazendo shows e gravando (adicionando no período o tecladista Brian Wingrove à sua formação) e por fim decidiu separar-se, em 1979.

Teria sido um fim injusto e melancólico para a banda, se não tivesse havido um recomeço, anos depois.

A história do Blue Ash tem um reinício nos anos 90, em meio ao revival power pop da época. Com seus dois discos fora de catálogo e relatos envolvendo a potência de seus shows, o Blue Ash tornou-se uma lenda, com farto material inédito gravado durante seu período de existência circulando entre colecionadores. Com o renovado interesse em torno da banda, em 2003 os membros originais Frank Secich, Jim Kendzor, Bill Bartolin e David Evans decidiram reunir-se pela primeira vez em 25 anos para uma série de shows, incluindo uma apresentação na edição daquele ano do festival International Pop Overthrow. No ano seguinte, a Not Lame Records lançou Around Again – A Collection of Rarities From the Vault 1972-79, uma coletânea com 44 músicas inéditas, abrangendo toda a carreira do Blue Ash.

Coletâneas de raridades e outtakes costumam ser mais indicadas a fãs die-hard, e muitas vezes pouco ou nada acrescentam às discografias das bandas e artistas. Não é, definitivamente, o caso aqui. Em síntese, Around Again é uma aula de power pop. Chega a ser difícil de acreditar que esse extraordinário material poderia jamais ter vindo a público. É possível, sem dificuldade, extrair dele pelo menos dois álbuns de excelente nível. A quantidade de ótimas canções torna proibitivo que se cite apenas algumas, mas é suficiente dizer que Around Again é um atestado definitivo do enorme talento da banda e da prolificidade da dupla de compositores Secich e Bartolin.

Em setembro de 2008 No More No Less finalmente ganhou sua versão em CD, através do selo Collectors’ Choice Music, para nova e unânime consagração da crítica, e definitivo reconhecimento do Blue Ash como banda clássica e fundamental para o power pop. A morte de Bill Bartolin em 3 de outubro de 2009 pôs um fim à trajetória do Blue Ash, que saiu de cena deixando um legado inquestionável e uma brilhante obra, obrigatória para qualquer power popper que deseje conhecer as origens desse estilo que tanto amamos.

http://www.myspace.com/officialblueash

http://blueashblog.blogspot.com/

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Power Pop: The Early Years - BLUE ASH! (Parte 1)

Por Daniel Arêas

Antes de ser redescoberta nos anos 2000 e ser reconhecida como uma das mais importantes da história do power pop, a banda americana Blue Ash passou por aquela típica sequência de infortúnios que alteram o destino de uma banda, que não poderia ser outro que não o sucesso comercial.

O Blue Ash foi formado em 1969 na cidade de Youngstown, Ohio, por Frank Secich (baixo, vocais), Jim Kendzor (lead vocals, guitarra), Bill Yendrek (guitarra) e David Evans (bateria). Um ano depois, Yendrek deu lugar a Bill Bartolin. Como acontece com toda grande banda de rock, moldaram seu som e sua personalidade no palco. Entre 1969 e 1972 fizeram incontáveis shows em estados como Pennsylvania, Nova York, Ohio e West Virginia, enquanto a dupla Secich e Bartolin compunha canções em quantidades industriais. Essas canções viriam a se tornar demos e enviadas para as gravadoras. E não há como negar que, para conseguir gravar seu primeiro disco, a banda foi um pouco bafejada pela sorte.

Paul Nelson, executivo da Mercury Records e que havia acabado de contratar os New York Dolls, conversava com um homem da cidade de Warren, Ohio, que estava lhe mostrando a demo tape de sua banda. Ao olhar para uma pilha de demos que estava sobre a mesa de Nelson, o homem reparou em uma em especial: a do Blue Ash. Ao ouvir que se tratava de uma grande banda, Nelson pôs para tocar a demo e percebeu imediatamente o potencial que havia ali. Assim, no fim de 1972 o Blue Ash assinou contrato com a Mercury e em maio de 1973 era lançado seu álbum de estréia, No More No Less.

No More No Less é um título mais que apropriado para o disco: não era mesmo preciso mais do que já há ali. Ou melhor, talvez nem fosse possível obter mais...se existe algum ponto ideal a meio caminho entre o melodismo e as elaboradas harmonias dos Beatles e a fúria rocker do The Who, o Blue Ash parece tê-lo encontrado – e explorou-o até as últimas conseqüências. Em canções como “Abracadabra (Have You Seen Her)”, “Plain To See”, “Here We Go Again”, “Wasting My Time” e outras, os ganchos são ultra-melódicos, mas vêm ancorados em guitarras incandescentes e performances altamente energéticas. O arsenal de No More No Less ainda contém uma nostálgica canção que revela a influência dos Byrds (“I Remember A Time”), duas ótimas baladas (“Just Another Game” e “What Can I Do For You”) e a cover de uma canção dos Beatles mais feroz de que se tem notícia (“Anytime At All”). Resumindo: um clássico instantâneo.

Se os fatos sempre seguissem um curso natural e lógico, No More No Less teria catapultado o Blue Ash para o sucesso. Mas mesmo com a ótima recepção da crítica não foi isso que aconteceu. Na verdade, nem mesmo a tiragem de 20.000 cópias chegou a ser esgotada, mas isso aconteceu pela ausência de divulgação e distribuição adequadas por parte da Mercury Records. Naquele momento a concorrência era ingrata para o Blue Ash dentro da gravadora: artistas como Rod Stewart e New York Dolls estavam lançando novos álbuns e os recursos de divulgação e distribuição disponíveis foram canalizados para eles.

A banda seguiu fazendo turnês (abrindo para artistas como Bob Seger, Aerosmith, Ted Nugent e Raspberries) e se preparava pra entrar em estúdio para gravar seu segundo disco, mas as baixas vendagens de No More No Less fizeram com que a Mercury Records decidisse por liberá-la de seu contrato, em maio de 1974. Pouco depois, David Evans deixava a banda. Era o primeiro revés na carreira do Blue Ash. E não seria o último.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

IPO VOLUME THIRTEEN!

A despeito da má reputação milenar e de ser rebaixado ao nível supersticioso de gato preto, mandinga e saravá três vezes, o número treze sempre trouxe bons fluídos para os power poppers. Treze é o nome de uma canção clássica dos nossos ídolos do Big Star. Treze é o nome de um álbum memorável dos nossos heróis do Teenage Fanclub. E agora treze é o número do novo volume da coletânea tripla do International Pop Overthrow.

Sorte nossa a compilação ter chegado forte, saudável e relevante ao décimo terceiro volume e, conseqüentemente, estar completando os treze anos de vida. Graças ao imenso trabalho do incansável e obstinado David Bash. Mesmo porque não se trata só de lançar uma coletânea dessa envergadura todo ano; trata-se de manter ativo um festival itinerante que percorre cada vez mais cidades nos Estados Unidos (e algumas fora, como Canadá e Inglaterra), e que é, na verdade, de onde deriva esta compilação.

E este volume treze faz as referências e reverências explícitas na arte de capa e contracapa: uma simula a arte do álbum #1 Record (onde está a faixa “Thirteen”) do Big Star e outra a arte de Thirteen, disco do Teenage Fanclub. Bons augúrios, então...
Com 66 faixas de 66 bandas vindas de oito países diferentes, o IPO Vol. Thirteen mantém a tradição de traçar o que de novo vem acontecendo no mundo – seja entre novas bandas ou grupos veteranos - do power pop, pop alternativo e afins.

Os noruegueses do The Royalties abrem o CD1 com a grudenta e radiofônica “Bring It On”, enquanto Seth Swirsky apresenta sua reflexiva e viajante - à La Brian Wilson - “She’s Doing Fine”, faixa pinçada do magistral álbum de 2010 Watercolor Day. Pianos pontuando, melodia memorável, refrão auto-adesivo e o indefectível inglês nipônico emolduram uma das melhores canções da coletânea: “Rain Parade” dos japoneses do The Mayflowers. Chis Richards & The Subtractions contribui com a poderosa e gentil, em doses iguais, “I, Miss July”, tirada do seu último disco “Sad Songs Of The Summer” e Stephen Lawrenson apresenta a adorável e inédita “Thank You”. As meninas californianas do Nushu mostram sua influência sessentista temperada com distorção contemporânea em “Leave Me Behind”, música de seu álbum de 2010 Hula.

Já no CD 2, e honrando a tradição pop da Austrália, vem os Stanleys, com a incrivelmente contagiante “What Are We Gonna Do?”. De Nova Iorque Ed Hale chega com a belíssima acústica “It Feels Too Good” e de Los Angeles Rob Bonfiglio traz a luminosa, de pegada soul e alma pop, “How To Mend a Heart”. Os suecos do Popgun armam a festa com “All Messed Up” e o veterano Jeremy reafirma sua capacidade de escrever canções pop em “Save Me From Myself”. A surf music sessentista vem representada pela canadense Laurie Biagini com “Not The Only Pretty Fish In His Sea”. O Tiny Volcano capricha nas harmonias vocais e melodias macias, no pop orquestral “Emily”. O Golden Bloom (na verdade o multi-homem Shawn Fogel) contagia com seu pop perfeito em “If You Believe”, abrindo o caminho para o pop clássico dominar as ações em “Heartaches Of Love” da Starfire Band. E Buddy Love aperta os botões certos para conquistar através da beleza emocional de seu novo single “Crying Town”.

O britânico Aaron Hemmington e seu Sunchymes estão no disco 3, onde destilam sua doçura sessentista de sotaque Pet Sounds com “Free Rider”. Os artífices texanos do power pop de Austin Blue Cartoon reaparecem com a bela e adesiva “If I Could Do It All Over Again” e os canadenses do The King oferecem sua delicada jóia pop “When Dreams Come True”. O Plastic Soul comparece com “Champion Tragic Boy” e seu refrão cheio de belos acordes. Os galeses do The Afternoons emocionam com a terna “I Want It Anyway”, enquanto Blake Jones & The Trike Shop diverte com “Forestiere Gardens” e seu clima de série de TV/cartoon network – que acaba combinando com a faixa seguinte “Peter Parker”, do The Whethermen.
Depois de mais uma overdose de pop com maiúsculas, só nos resta contar os dias para o IPO Volume 14... e a certeza de que sim, o treze pode ser nosso número da sorte.

http://www.internationalpopoverthrow.com/
 
http://www.notlame.com/NLIPO13.html

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

"Wasted Sun": ANY VERSION OF ME!

Por Daniel Arêas

A linda capa de Wasted Sun, o novo disco do Any Version of Me, mostra a silhueta de uma pessoa, em frente à imensidão do mar, durante um pôr (ou nascer) do sol. A imagem inspiradora diz mais sobre o disco do que palavras. Wasted Sun reúne doze canções que transmitem sensações similares às que a foto da capa sugere: paz, tranqüilidade, aconchego, conforto.

O francês de Paris Guillaume (o homem por trás do Any Version of Me) já havia demonstrado em seus álbuns anteriores – principalmente no magnífico Backward Forever, de 2008 – que traz entranhado em suas veias o pop clássico sessentista. Ouvir seus discos traz uma agradável sensação de familiaridade, não apenas pela atemporalidade dos sons da época que os inspira, mas também pela certeza de que encontraremos melodias apaixonantes à primeira audição. A sensação de que estamos ouvindo discos saídos diretamente dos anos 60 é ainda mais acentuada pelo uso, por parte de Guillaume, de equipamentos vintage em seus trabalhos.

A idéia inicial era a de que Wasted Sun fosse um álbum psicodélico, no qual as canções fossem interligadas por passagens instrumentais, mas essa versão acabou sendo descartada. As composições não datam do mesmo período: das doze canções, duas foram escritas em 2002; três, em 2007 (para um álbum que se chamaria Summer After All, projeto que foi abortado); todas as restantes foram compostas em 2009. Mas isso de forma alguma afetou a coesão do álbum, que soa homogêneo.

Em relação a Backward Forever e Home Alone (2009), as canções de Wasted Sun parecem mostrar que, desta vez, o eixo musical inspirador de Guillaume deslocou-se ligeiramente da Inglaterra em direção aos Estados Unidos (mais exatamente, a Califórnia). A vocação para o pop clássico permanece intacta: ele continua compondo segundo os preceitos sagrados de vários de nossos heróis eternos (Beatles, Zombies, Beach Boys, Brian Wilson, Paul McCartney). Mas em Wasted Sun ele adiciona às canções arranjos mais elaborados, timbres mais suaves, elegantes. O resultado disso tudo é, possivelmente, seu melhor trabalho até aqui.

Há, na maior parte do disco, uma atmosfera que remete ao clássico Pet Sounds. Claro, o pop britânico da segunda metade dos anos 60 ainda exerce forte influência sobre as composições de Guillaume: a faixa de abertura “Monday” e as belas “Don’t Try Too Hard” e “Down To The Sea” são mostras disso. Mas lado a lado com estas há o adorável sunshine pop de “Normal Life” e “Early One Morning”. Nessa mesma linha segue a inebriante faixa-título, com seus leves tons psicodélicos e densas harmonias.

Com seus pouco mais de sete minutos de duração, “With the Moon” é um dos destaques do disco. Magnificamente construída e executada, consiste em uma colagem de fragmentos de canções, abrangendo estilos tão diversos como o folk, o sunshine pop e o psicodélico. A dreamy “Love” é conduzida por um órgão sutil e esparsos acordes de guitarra, e embelezada por deslumbrantes harmonias vocais; poderia ser o equivalente musical a uma caminhada pela orla, num morno fim de tarde de verão. Fecha o disco a linda “This Is Where I Wanna Live”, com seu arranjo de cordas (originadas de um Mellotron) e guitarras invertidas, evocativas da fase psicodélica dos Fab Four.

Ao fim do disco, fica evidente: é o ouvinte (nós), aquela pessoa na capa, em frente ao mar. Há mesmo momentos em que tudo de que precisamos é algo assim: observar o sol surgir (ou desaparecer) por detrás do mar, e nos isolarmos de todo o resto. Ou, alternativamente, ouvirmos canções que despertem sensações equivalentes, ternas e reconfortantes. O local e o momento ideais fica a nosso cargo escolher; as canções encontramos aqui, do princípio ao fim de Wasted Sun.

http://www.anyversionofme.com/
www.myspace.com/anyversionofme

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Da Série Clássicos: "Blue Pop" - ADAM DANIEL!

Por Daniel Arêas

O amor e seus meandros é um tema recorrente no power pop. Não apenas em seus aspectos lúdicos, mas também no seu lado melancólico, amargo – idealmente, abordado com genuína emoção. E claro: ancorado em canções pop, as mais perfeitas quanto possível, a eterna busca inerente ao power pop. Atingido o ápice nesses dois quesitos (ou chegado bem perto disso), o que temos são aquelas obras que definitivamente marcam quem as ouve, que realmente fazem a diferença. É o caso do 8º. disco da Série Clássicos do Power Pop Station: Blue Pop, do cantor/compositor/músico/produtor americano Adam Daniel.

O envolvimento do americano de Santa Monica (Califórnia) Adam Daniel com a música começou bem cedo: aos seis anos de idade aprendeu a tocar piano, aos nove já se aventurava na guitarra. Exposto a doses maciças de pop clássico durante sua infância, através de seu pai (músico) e seu irmão mais velho, Adam se graduou na UCLA (University of California, Los Angeles) em 1995 e começou a gravar demos, que eventualmente lhe renderiam um contrato com a APG Records.

Na verdade Adam exerce várias atividades e sua biografia é um pouco mais extensa do que o espaço permite (quem quiser saber mais, ver comentários). Por ora, falemos de Blue Pop, seu álbum de estréia, lançado em 1999 e para o qual ele compôs todas as músicas, criou os arranjos, tocou praticamente todos os instrumentos (à exceção da bateria) e co-produziu. Já no seu primeiro disco, Adam alcançou um resultado que a grande maioria dos compositores leva a vida toda perseguindo – e não atinge.

Blue Pop é sobre os relacionamentos amorosos e seus vários aspectos. Em algumas músicas, Adam os celebra; em outras, ele os vê pela perspectiva da pessoa rejeitada; em outras, é ele quem dá o adeus. Para narrar essas histórias de amor e desamor (que, ele afirma, em sua maioria realmente aconteceram com ele) Adam se alterna com incrível facilidade entre o mais puro guitar pop e momentos mais introspectivos, quietos. Musicalmente, comparações podem ser feitas com alguns de seus contemporâneos da década de 90 (Michael Penn, Posies fase Dear 23, Elliott Smith, Fountains of Wayne, Steve Ward), mas seu diferencial é a comovente sinceridade e a emoção que ele imprime a essas treze simplesmente soberbas canções.

Se alguém um dia pedir para que você explique o que é um gancho musical, mostre a ele (a) “Breaking Up”, a sensacional faixa que abre Blue Pop. Um inacreditavelmente grudento riff de teclado prende o ouvinte instantaneamente à canção, cuja letra chega a ser cruel em suas palavras de despedida (I’ve got a lot of clothes that you’re never going to see me in/I’ll write a lot of songs that you’ll never get to hear me sing/and I told a couple lies and you’re never going to know which one). Em seguida, o balanço beatle de “Battle Song” parece celebrar a vida a dois (Hold me babydoll/And I held her/Say you’ll be my valentine/And I brought her hearts/And be my soldier boy/And I sent myself to war). Pausa nas guitarras para a suave “Lovebug”, na qual a bela voz de Adam é acompanhada por teclados, delicadas harmonias vocais e uma discreta pedal esteel guitar.

Vem a alegria rocker de “Her Shake” e tudo parece estar bem (She makes good sense/She says “Say what you want to say/Do what you want to do/Go where you wanna go, just take me there”). Em seguida (e em contraste), uma daquelas faixas às quais é virtualmente impossível se ficar alheio: em contraposição à ironia de “Breaking Up”, em “Why I Can’t Be Beside You” Adam anuncia o fim em tom solene, quase épico, iniciando apenas com voz e violão e encerrando com teclados e camadas de guitarras. É mesmo difícil apontar os grandes momentos de Blue Pop (porque só há grandes momentos), mas não os mais emocionantes – e este é um deles.

A contagiante batida de “Guess I Got A Girl” nos remete ao pop clássico sessentista e é acompanhada por uma cativantemente quase ingênua letra, de tão feliz (I guess I got a girl/And she likes to call me “boy” and I want/To be with her forever/She’s like a pill and I need to have it every day). Mas a proposta de Adam é contrapor o ganho e a perda, a alegria e a dor. Em “You Wrecked Me” – outro momento de arrepiar – apenas um violão acompanha sua voz quase sussurrante, enquanto ele discorre sobre a perda da pessoa amada. Aqui ele prova ser um compositor do mesmo calibre de gênios como Elliott Smith e Chris Bell. E por fim, a calma “Say Goodbye” fecha Blue Pop, no mesmo clima bittersweet que permeia o disco inteiro.

Qualquer lista com os melhores álbuns de guitar pop dos anos 90 que se pretenda séria precisa incluir Blue Pop. Seu título pode sugerir que trata-se de um disco essencialmente triste, mas não é o caso. Adam Daniel toca sim, em certos pontos difíceis dos romances, mas usa a linguagem do pop para fazê-lo. Blue Pop tem grande potencial para nos comover – possivelmente até arrancar algumas lágrimas – mas o que temos quando terminamos de ouvi-lo é uma enorme sensação de prazer e bem-estar. Ele nos deixa com um sorriso no rosto. E prontos, claro, para novas audições.