quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Power Pop: The Early Years - BLUE ASH! (Parte 1)

Por Daniel Arêas

Antes de ser redescoberta nos anos 2000 e ser reconhecida como uma das mais importantes da história do power pop, a banda americana Blue Ash passou por aquela típica sequência de infortúnios que alteram o destino de uma banda, que não poderia ser outro que não o sucesso comercial.

O Blue Ash foi formado em 1969 na cidade de Youngstown, Ohio, por Frank Secich (baixo, vocais), Jim Kendzor (lead vocals, guitarra), Bill Yendrek (guitarra) e David Evans (bateria). Um ano depois, Yendrek deu lugar a Bill Bartolin. Como acontece com toda grande banda de rock, moldaram seu som e sua personalidade no palco. Entre 1969 e 1972 fizeram incontáveis shows em estados como Pennsylvania, Nova York, Ohio e West Virginia, enquanto a dupla Secich e Bartolin compunha canções em quantidades industriais. Essas canções viriam a se tornar demos e enviadas para as gravadoras. E não há como negar que, para conseguir gravar seu primeiro disco, a banda foi um pouco bafejada pela sorte.

Paul Nelson, executivo da Mercury Records e que havia acabado de contratar os New York Dolls, conversava com um homem da cidade de Warren, Ohio, que estava lhe mostrando a demo tape de sua banda. Ao olhar para uma pilha de demos que estava sobre a mesa de Nelson, o homem reparou em uma em especial: a do Blue Ash. Ao ouvir que se tratava de uma grande banda, Nelson pôs para tocar a demo e percebeu imediatamente o potencial que havia ali. Assim, no fim de 1972 o Blue Ash assinou contrato com a Mercury e em maio de 1973 era lançado seu álbum de estréia, No More No Less.

No More No Less é um título mais que apropriado para o disco: não era mesmo preciso mais do que já há ali. Ou melhor, talvez nem fosse possível obter mais...se existe algum ponto ideal a meio caminho entre o melodismo e as elaboradas harmonias dos Beatles e a fúria rocker do The Who, o Blue Ash parece tê-lo encontrado – e explorou-o até as últimas conseqüências. Em canções como “Abracadabra (Have You Seen Her)”, “Plain To See”, “Here We Go Again”, “Wasting My Time” e outras, os ganchos são ultra-melódicos, mas vêm ancorados em guitarras incandescentes e performances altamente energéticas. O arsenal de No More No Less ainda contém uma nostálgica canção que revela a influência dos Byrds (“I Remember A Time”), duas ótimas baladas (“Just Another Game” e “What Can I Do For You”) e a cover de uma canção dos Beatles mais feroz de que se tem notícia (“Anytime At All”). Resumindo: um clássico instantâneo.

Se os fatos sempre seguissem um curso natural e lógico, No More No Less teria catapultado o Blue Ash para o sucesso. Mas mesmo com a ótima recepção da crítica não foi isso que aconteceu. Na verdade, nem mesmo a tiragem de 20.000 cópias chegou a ser esgotada, mas isso aconteceu pela ausência de divulgação e distribuição adequadas por parte da Mercury Records. Naquele momento a concorrência era ingrata para o Blue Ash dentro da gravadora: artistas como Rod Stewart e New York Dolls estavam lançando novos álbuns e os recursos de divulgação e distribuição disponíveis foram canalizados para eles.

A banda seguiu fazendo turnês (abrindo para artistas como Bob Seger, Aerosmith, Ted Nugent e Raspberries) e se preparava pra entrar em estúdio para gravar seu segundo disco, mas as baixas vendagens de No More No Less fizeram com que a Mercury Records decidisse por liberá-la de seu contrato, em maio de 1974. Pouco depois, David Evans deixava a banda. Era o primeiro revés na carreira do Blue Ash. E não seria o último.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

IPO VOLUME THIRTEEN!

A despeito da má reputação milenar e de ser rebaixado ao nível supersticioso de gato preto, mandinga e saravá três vezes, o número treze sempre trouxe bons fluídos para os power poppers. Treze é o nome de uma canção clássica dos nossos ídolos do Big Star. Treze é o nome de um álbum memorável dos nossos heróis do Teenage Fanclub. E agora treze é o número do novo volume da coletânea tripla do International Pop Overthrow.

Sorte nossa a compilação ter chegado forte, saudável e relevante ao décimo terceiro volume e, conseqüentemente, estar completando os treze anos de vida. Graças ao imenso trabalho do incansável e obstinado David Bash. Mesmo porque não se trata só de lançar uma coletânea dessa envergadura todo ano; trata-se de manter ativo um festival itinerante que percorre cada vez mais cidades nos Estados Unidos (e algumas fora, como Canadá e Inglaterra), e que é, na verdade, de onde deriva esta compilação.

E este volume treze faz as referências e reverências explícitas na arte de capa e contracapa: uma simula a arte do álbum #1 Record (onde está a faixa “Thirteen”) do Big Star e outra a arte de Thirteen, disco do Teenage Fanclub. Bons augúrios, então...
Com 66 faixas de 66 bandas vindas de oito países diferentes, o IPO Vol. Thirteen mantém a tradição de traçar o que de novo vem acontecendo no mundo – seja entre novas bandas ou grupos veteranos - do power pop, pop alternativo e afins.

Os noruegueses do The Royalties abrem o CD1 com a grudenta e radiofônica “Bring It On”, enquanto Seth Swirsky apresenta sua reflexiva e viajante - à La Brian Wilson - “She’s Doing Fine”, faixa pinçada do magistral álbum de 2010 Watercolor Day. Pianos pontuando, melodia memorável, refrão auto-adesivo e o indefectível inglês nipônico emolduram uma das melhores canções da coletânea: “Rain Parade” dos japoneses do The Mayflowers. Chis Richards & The Subtractions contribui com a poderosa e gentil, em doses iguais, “I, Miss July”, tirada do seu último disco “Sad Songs Of The Summer” e Stephen Lawrenson apresenta a adorável e inédita “Thank You”. As meninas californianas do Nushu mostram sua influência sessentista temperada com distorção contemporânea em “Leave Me Behind”, música de seu álbum de 2010 Hula.

Já no CD 2, e honrando a tradição pop da Austrália, vem os Stanleys, com a incrivelmente contagiante “What Are We Gonna Do?”. De Nova Iorque Ed Hale chega com a belíssima acústica “It Feels Too Good” e de Los Angeles Rob Bonfiglio traz a luminosa, de pegada soul e alma pop, “How To Mend a Heart”. Os suecos do Popgun armam a festa com “All Messed Up” e o veterano Jeremy reafirma sua capacidade de escrever canções pop em “Save Me From Myself”. A surf music sessentista vem representada pela canadense Laurie Biagini com “Not The Only Pretty Fish In His Sea”. O Tiny Volcano capricha nas harmonias vocais e melodias macias, no pop orquestral “Emily”. O Golden Bloom (na verdade o multi-homem Shawn Fogel) contagia com seu pop perfeito em “If You Believe”, abrindo o caminho para o pop clássico dominar as ações em “Heartaches Of Love” da Starfire Band. E Buddy Love aperta os botões certos para conquistar através da beleza emocional de seu novo single “Crying Town”.

O britânico Aaron Hemmington e seu Sunchymes estão no disco 3, onde destilam sua doçura sessentista de sotaque Pet Sounds com “Free Rider”. Os artífices texanos do power pop de Austin Blue Cartoon reaparecem com a bela e adesiva “If I Could Do It All Over Again” e os canadenses do The King oferecem sua delicada jóia pop “When Dreams Come True”. O Plastic Soul comparece com “Champion Tragic Boy” e seu refrão cheio de belos acordes. Os galeses do The Afternoons emocionam com a terna “I Want It Anyway”, enquanto Blake Jones & The Trike Shop diverte com “Forestiere Gardens” e seu clima de série de TV/cartoon network – que acaba combinando com a faixa seguinte “Peter Parker”, do The Whethermen.
Depois de mais uma overdose de pop com maiúsculas, só nos resta contar os dias para o IPO Volume 14... e a certeza de que sim, o treze pode ser nosso número da sorte.

http://www.internationalpopoverthrow.com/
 
http://www.notlame.com/NLIPO13.html

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

"Wasted Sun": ANY VERSION OF ME!

Por Daniel Arêas

A linda capa de Wasted Sun, o novo disco do Any Version of Me, mostra a silhueta de uma pessoa, em frente à imensidão do mar, durante um pôr (ou nascer) do sol. A imagem inspiradora diz mais sobre o disco do que palavras. Wasted Sun reúne doze canções que transmitem sensações similares às que a foto da capa sugere: paz, tranqüilidade, aconchego, conforto.

O francês de Paris Guillaume (o homem por trás do Any Version of Me) já havia demonstrado em seus álbuns anteriores – principalmente no magnífico Backward Forever, de 2008 – que traz entranhado em suas veias o pop clássico sessentista. Ouvir seus discos traz uma agradável sensação de familiaridade, não apenas pela atemporalidade dos sons da época que os inspira, mas também pela certeza de que encontraremos melodias apaixonantes à primeira audição. A sensação de que estamos ouvindo discos saídos diretamente dos anos 60 é ainda mais acentuada pelo uso, por parte de Guillaume, de equipamentos vintage em seus trabalhos.

A idéia inicial era a de que Wasted Sun fosse um álbum psicodélico, no qual as canções fossem interligadas por passagens instrumentais, mas essa versão acabou sendo descartada. As composições não datam do mesmo período: das doze canções, duas foram escritas em 2002; três, em 2007 (para um álbum que se chamaria Summer After All, projeto que foi abortado); todas as restantes foram compostas em 2009. Mas isso de forma alguma afetou a coesão do álbum, que soa homogêneo.

Em relação a Backward Forever e Home Alone (2009), as canções de Wasted Sun parecem mostrar que, desta vez, o eixo musical inspirador de Guillaume deslocou-se ligeiramente da Inglaterra em direção aos Estados Unidos (mais exatamente, a Califórnia). A vocação para o pop clássico permanece intacta: ele continua compondo segundo os preceitos sagrados de vários de nossos heróis eternos (Beatles, Zombies, Beach Boys, Brian Wilson, Paul McCartney). Mas em Wasted Sun ele adiciona às canções arranjos mais elaborados, timbres mais suaves, elegantes. O resultado disso tudo é, possivelmente, seu melhor trabalho até aqui.

Há, na maior parte do disco, uma atmosfera que remete ao clássico Pet Sounds. Claro, o pop britânico da segunda metade dos anos 60 ainda exerce forte influência sobre as composições de Guillaume: a faixa de abertura “Monday” e as belas “Don’t Try Too Hard” e “Down To The Sea” são mostras disso. Mas lado a lado com estas há o adorável sunshine pop de “Normal Life” e “Early One Morning”. Nessa mesma linha segue a inebriante faixa-título, com seus leves tons psicodélicos e densas harmonias.

Com seus pouco mais de sete minutos de duração, “With the Moon” é um dos destaques do disco. Magnificamente construída e executada, consiste em uma colagem de fragmentos de canções, abrangendo estilos tão diversos como o folk, o sunshine pop e o psicodélico. A dreamy “Love” é conduzida por um órgão sutil e esparsos acordes de guitarra, e embelezada por deslumbrantes harmonias vocais; poderia ser o equivalente musical a uma caminhada pela orla, num morno fim de tarde de verão. Fecha o disco a linda “This Is Where I Wanna Live”, com seu arranjo de cordas (originadas de um Mellotron) e guitarras invertidas, evocativas da fase psicodélica dos Fab Four.

Ao fim do disco, fica evidente: é o ouvinte (nós), aquela pessoa na capa, em frente ao mar. Há mesmo momentos em que tudo de que precisamos é algo assim: observar o sol surgir (ou desaparecer) por detrás do mar, e nos isolarmos de todo o resto. Ou, alternativamente, ouvirmos canções que despertem sensações equivalentes, ternas e reconfortantes. O local e o momento ideais fica a nosso cargo escolher; as canções encontramos aqui, do princípio ao fim de Wasted Sun.

http://www.anyversionofme.com/
www.myspace.com/anyversionofme

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Da Série Clássicos: "Blue Pop" - ADAM DANIEL!

Por Daniel Arêas

O amor e seus meandros é um tema recorrente no power pop. Não apenas em seus aspectos lúdicos, mas também no seu lado melancólico, amargo – idealmente, abordado com genuína emoção. E claro: ancorado em canções pop, as mais perfeitas quanto possível, a eterna busca inerente ao power pop. Atingido o ápice nesses dois quesitos (ou chegado bem perto disso), o que temos são aquelas obras que definitivamente marcam quem as ouve, que realmente fazem a diferença. É o caso do 8º. disco da Série Clássicos do Power Pop Station: Blue Pop, do cantor/compositor/músico/produtor americano Adam Daniel.

O envolvimento do americano de Santa Monica (Califórnia) Adam Daniel com a música começou bem cedo: aos seis anos de idade aprendeu a tocar piano, aos nove já se aventurava na guitarra. Exposto a doses maciças de pop clássico durante sua infância, através de seu pai (músico) e seu irmão mais velho, Adam se graduou na UCLA (University of California, Los Angeles) em 1995 e começou a gravar demos, que eventualmente lhe renderiam um contrato com a APG Records.

Na verdade Adam exerce várias atividades e sua biografia é um pouco mais extensa do que o espaço permite (quem quiser saber mais, ver comentários). Por ora, falemos de Blue Pop, seu álbum de estréia, lançado em 1999 e para o qual ele compôs todas as músicas, criou os arranjos, tocou praticamente todos os instrumentos (à exceção da bateria) e co-produziu. Já no seu primeiro disco, Adam alcançou um resultado que a grande maioria dos compositores leva a vida toda perseguindo – e não atinge.

Blue Pop é sobre os relacionamentos amorosos e seus vários aspectos. Em algumas músicas, Adam os celebra; em outras, ele os vê pela perspectiva da pessoa rejeitada; em outras, é ele quem dá o adeus. Para narrar essas histórias de amor e desamor (que, ele afirma, em sua maioria realmente aconteceram com ele) Adam se alterna com incrível facilidade entre o mais puro guitar pop e momentos mais introspectivos, quietos. Musicalmente, comparações podem ser feitas com alguns de seus contemporâneos da década de 90 (Michael Penn, Posies fase Dear 23, Elliott Smith, Fountains of Wayne, Steve Ward), mas seu diferencial é a comovente sinceridade e a emoção que ele imprime a essas treze simplesmente soberbas canções.

Se alguém um dia pedir para que você explique o que é um gancho musical, mostre a ele (a) “Breaking Up”, a sensacional faixa que abre Blue Pop. Um inacreditavelmente grudento riff de teclado prende o ouvinte instantaneamente à canção, cuja letra chega a ser cruel em suas palavras de despedida (I’ve got a lot of clothes that you’re never going to see me in/I’ll write a lot of songs that you’ll never get to hear me sing/and I told a couple lies and you’re never going to know which one). Em seguida, o balanço beatle de “Battle Song” parece celebrar a vida a dois (Hold me babydoll/And I held her/Say you’ll be my valentine/And I brought her hearts/And be my soldier boy/And I sent myself to war). Pausa nas guitarras para a suave “Lovebug”, na qual a bela voz de Adam é acompanhada por teclados, delicadas harmonias vocais e uma discreta pedal esteel guitar.

Vem a alegria rocker de “Her Shake” e tudo parece estar bem (She makes good sense/She says “Say what you want to say/Do what you want to do/Go where you wanna go, just take me there”). Em seguida (e em contraste), uma daquelas faixas às quais é virtualmente impossível se ficar alheio: em contraposição à ironia de “Breaking Up”, em “Why I Can’t Be Beside You” Adam anuncia o fim em tom solene, quase épico, iniciando apenas com voz e violão e encerrando com teclados e camadas de guitarras. É mesmo difícil apontar os grandes momentos de Blue Pop (porque só há grandes momentos), mas não os mais emocionantes – e este é um deles.

A contagiante batida de “Guess I Got A Girl” nos remete ao pop clássico sessentista e é acompanhada por uma cativantemente quase ingênua letra, de tão feliz (I guess I got a girl/And she likes to call me “boy” and I want/To be with her forever/She’s like a pill and I need to have it every day). Mas a proposta de Adam é contrapor o ganho e a perda, a alegria e a dor. Em “You Wrecked Me” – outro momento de arrepiar – apenas um violão acompanha sua voz quase sussurrante, enquanto ele discorre sobre a perda da pessoa amada. Aqui ele prova ser um compositor do mesmo calibre de gênios como Elliott Smith e Chris Bell. E por fim, a calma “Say Goodbye” fecha Blue Pop, no mesmo clima bittersweet que permeia o disco inteiro.

Qualquer lista com os melhores álbuns de guitar pop dos anos 90 que se pretenda séria precisa incluir Blue Pop. Seu título pode sugerir que trata-se de um disco essencialmente triste, mas não é o caso. Adam Daniel toca sim, em certos pontos difíceis dos romances, mas usa a linguagem do pop para fazê-lo. Blue Pop tem grande potencial para nos comover – possivelmente até arrancar algumas lágrimas – mas o que temos quando terminamos de ouvi-lo é uma enorme sensação de prazer e bem-estar. Ele nos deixa com um sorriso no rosto. E prontos, claro, para novas audições.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Power Pop - The Early Years: ARTFUL DODGER! (Parte 2)

Por Daniel Arêas
 
Honor Among Thieves (1976), o segundo disco do Artful Dodger, igualmente como seu predecessor (lançado no ano anterior) recebeu muitos elogios da crítica, e hoje provoca a mesma perplexidade: por que, afinal de contas, não estourou? As possíveis razões – levantadas pelos próprios membros da banda, em retrospectiva – vão desde a troca do produtor (embora Jack Douglas – produtor do primeiro álbum - curiosamente tivesse recebido os créditos, quem realmente produziu Honor Among Thieves foi Eddie Leonetti) até equivocadas decisões na condução da carreira da banda (como embarcar em uma turnê com o Kiss, tocando em grandes arenas, ao invés de ganhar experiência tocando em locais menores).

Um fato que não suscitava dúvidas, porém, é o de que Honor Among Thieves expandia todos os conceitos que o disco de estréia trazia, e efetivamente o superava. Das power ballads “Scream” e “Dandelion” (esta composta e cantada por Gary Cox) até canções que beiravam o hard rock como a faixa-título, “Keep Me Happy” e “Hey Boys”, passando por uma incendiária cover de “Keep A-Knockin’”, Honor Among Thieves era o retrato de uma banda em plena evolução de sua proposta musical.

Evolução esta que seria bruscamente interrompida no disco seguinte. Àquela altura a banda fazia desgastantes turnês, sem a contrapartida do sucesso comercial (embora tivesse alcançado uma pequena audiência, basicamente concentrada em Cleveland). A prolífica parceria entre Paliselli e Herrewig parecia pouco inspirada naquele momento e várias canções que Cox escreveu - sem a intenção de incluí-las no repertório do Artful Dodger – foram aproveitadas.

Além disso, a CBS começou a privilegiar as canções de Cox (inclusive encorajando-o a tentar uma carreira solo, sem o conhecimento dos demais membros), piorando ainda mais o clima dentro da banda. O resultado disso tudo – Babes on Broadway, lançado em 1977 – não chegava a ser ruim, mas não havia nele nem sombra da força e coesão dos dois discos anteriores. Poderia mesmo ter sido o fim (melancólico) da trajetória do Artful Dodger, que se viu sem gravadora, sem empresários para cuidar de sua carreira e sem Gary Cox, que decidiu deixar a banda.

Mas esse não era o fim da história. Depois de um hiato de três anos, o Artful Dodger se reagrupou para uma última tentativa, com o pianista/guitarrista Peter Bonta ocupando o posto deixado por Cox. Assinaram com a Ariola Records para em 1980 lançarem o disco de suas vidas. Do princípio ao fim, Rave On leva a um nível muito próximo da perfeição a fórmula da banda: ganchudas, irresistíveis canções pop, tocadas com o máximo de garra e intensidade. Mais do que um disco, soa como uma afirmação da convicção que a banda tinha de si própria e do som que fazia. Se os dois primeiros discos eram excelentes, Rave On é a obra-prima do Artful Dodger.

Uma vez mais, a ótima recepção do disco pela crítica contrastou com a indiferença do público, e a banda decidiu se separar. Mas esse ainda não é o fim da história – felizmente.

A história do Artful Dodger continua da mesma forma que a de várias outras bandas power pop da sua época: através do interesse das novas gerações. De 1991 para cá a banda fez vários shows de reunião em Cleveland. O selo Pendulum Entertainment Group (via Sony Music) relançou os dois primeiros discos em CD em 1997. Há um excelente site dedicado à banda (o link está nos comentários) de onde saiu a maior parte das informações contidas nessa biografia. Rave On foi incluído na lista Shake Some Action de John Borack. O reconhecimento veio, enfim. Nada mais justo para uma banda como o Artful Dodger. Para além de “apenas” uma das maiores bandas power pop de todos os tempos – uma excepcional banda de rock n’roll.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Power Pop: The Early Years - ARTFUL DODGER! (PARTE 1)

Por Daniel Arêas

Se a definição mais concisa e direta para o power pop é a de que nasce da junção das melodias mais pegajosas com a energia primal do rock, então poucas bandas o fizeram com tanto talento, energia e vigor quanto o Artful Dodger. Infelizmente, como no caso da grande maioria de seus pares, para a banda americana também acabou prevalecendo a regra de que fazer o power pop perfeito durante os anos 70 trazia em si o ônus de ser virtualmente ignorado por uma audiência aparentemente desinteressada naquela reinvenção dos clássicos sons da British Invasion (para não mencionar algumas decisões equivocadas daqueles que cuidavam de sua carreira).

O Artful Dodger – formado em Fairfax, Virginia em 1973 por Billy Paliselli (vocais), Gary Herrewig (guitarra), Gary Cox (guitarra e vocais), Steve Cooper (baixo) e Steve Brigida (bateria) – possuía uma rara facilidade para produzir canções pop em série, mas executava-as com a alma e a paixão que o rock pede (tanto em estúdio como em shows); fundia a onipresente influência dos Beatles e o power pop dos Raspberries com o hard rock dos Faces, Rolling Stones e The Who. Dito desta forma, a alquimia soa perfeita; e foi de fato perfeita, em três dos quatro discos de sua curta carreira.

Originalmente utilizando o nome Brat, a banda lançou seu primeiro single (auto-produzido), “Not Quite Right”, tendo como B-side “Long Time Away” (que seria posteriormente regravada para o primeiro disco). Munido de uma demo tape, David Cox rumou para Nova York e conseguiu convencer Steve Laber e David Krebs (que à época tinham em seu cast nomes como Aerosmith e New York Dolls) a cuidar da carreira da banda. Pouco depois um contrato era assinado com a Columbia Records e a banda, rebatizada como Artful Dodger, lançava seu primeiro disco, homônimo, em setembro de 1975.

O termo “clássico perdido” é quase um lugar comum quando nos referimos ao power pop dos anos 70, tamanha é a quantidade de grandes discos que permaneceram na obscuridade na época de seus lançamentos, mas poucos discos se encaixam tão bem na definição quanto Artful Dodger . Produzido por Jack Douglas (famoso por seu trabalho em Toys In The Attic do Aerosmith, entre outros), é uma coleção de soberbas canções, irresistivelmente melódicas (porém executadas com o máximo de energia e intensidade), baseadas em fortes ganchos. Presente em algumas coletâneas de bandas power pop, “Wayside” tornou-se a canção mais conhecida, mas há vários outros esplêndidos momentos no álbum, como “You Know It’s Allright”, “Follow Me”, “Think Think” e “Things I’d Like To Do Again”.

Um erro estratégico da Columbia Records, porém, começaria a selar o destino da banda. A faixa escolhida pela gravadora para ser o primeiro single foi “Silver & Gold”, uma balada assinada por Cox. Essa equivocada decisão contribuiu para que o disco tivesse vendagens decepcionantes, além de gerar certa animosidade no núcleo da banda (embora Cox escrevesse canções, a maior parte do repertório do Artful Dodger nascia da parceria entre Paliselli e Herrewig). Mas isso não afetou a produção da banda, como ficaria comprovado com o lançamento de Honor Among Thieves, em 1976.



terça-feira, 4 de maio de 2010

"Ragged But Right": MEMPHIS 59!

Eles são muito modernos para o country. Eles são muito tradicionais para o rock. Eles são pop, mas não necessariamente comerciais. Mas não duvide do seu potencial radiofônico ou apelo popular. ‘Americana’ e ‘alt.country’ são rótulos deveras cool para o Chevrolet enferrujado que estampa a capa de Ragged But Right. O Memphis 59 trafega com sua velha caminhonete laranja pela fronteira de estilos tão díspares como complementares, de sua pequena Arlington natal para o mundo.

Em seu álbum de estreia o trio Scott Kurt, Chris Zogby e Richard G. Lewis poderia ser Paul Westerberg tocando Tom Petty ou o Jayhawks interpretando o Whiskeytown. Mas, de certa forma, o vocal característico de Kurt coloca as coisas no lugar: estamos falando do Memphis 59. E “Me Myself And Eyes”, canção que abre Ragged But Right, logo se apresenta com seu riff de guitarra que consegue remeter ao country com trejeito rock e acento pop. “Black & White TV” ataca com um refrão ganchudo e “Knock Me Out” usa dos serviços uma slide guitar para realçar o clima de raiz.

A envolvente “Girl At The End Of the Bar” coloca chapéu de cowboy e esporas no power pop, enquanto “Hotel Room” tem a missão de decalcar mais um refrão adesivo no cérebro do ouvinte. A bela e cativante “Putting Up A Fight” antecede o sabor clássico de “Quit Kickin My Heart Around” e “Heartbreak Luck”.
Ragged But Right vai do country ao pop como de Arlington a Nova Iorque: porque dá pra ir esvaziando umas Budweiser, em pouco mais de 300 km de distância, entre a pequena cidade na Virginia e o centro do mundo.

www.memphis59.com
www.myspace.com/memphis59band1