quinta-feira, 19 de março de 2009

"That Evil Drone": THE RESONARS!

Pouco mais de um ano atrás, quando publiquei a resenha de Nonetheless Blues, eu dizia que era um álbum perfeito para o vinil. Mas tinha a cópia em CD nas mãos. Ironicamente a primeira edição de That Evil Drone, sexto álbum da banda, foi lançada em uma remessa única de 300 vinis. E é um desses que hoje me inspira nestas linhas, o velho bolachão preto, cujos detalhes e entrelinhas da capa podem ser vistos... a olho nu!

O Resonars se resume hoje ao seu líder e mentor Matt Rendon, que de dentro de seu estúdio Coma Cave, em Tucson Arizona, transformou That Evil Drone em um clássico dos anos... sessenta!? Gravadores analógicos e instrumentos vintage impregnam a atmosfera do álbum de sonoridade sixties. E, se o disco não marca seu ano de lançamento em parte alguma, enganaria fácil até alguns ouvidos mais experimentados. Passaria por tesouro perdido e desenterrado do solo sagrado de onde brotaram as legendas Beatles, Hollies ou Who.

Quando a agulha toca os sulcos da primeira faixa do lado A “World Apart”, a viagem tem início e nos arremessa, sem escalas, quarenta anos atrás. Som garageiro, vocais dobrados, bateria nervosa e refrão pop. Uma colisão, com sobreviventes, entre Hollies e Who. Enquanto a energética “No Black Clouds Float By”, e sua melodia cheia de urgência juvenil, deve frequentar top tens atemporais em algum universo paralelo.

Impressiona como Rendon consegue, sozinho, recriar todo o ambiente sixtie, fazer com que a produção, os timbres, as afinações soem genuinamente daquela época sem efetivamente serem. Que o diga o merseybeat de “No Horizon”. Virando o disco, abre o lado B os teclados e palminhas da contagiante “Sister Sally”, seguida de perto a fúria de garagem “Black Breath”. Já “Bird Using Bird” se encontra com o rock cinquentista pré-Beatles, como os próprios fizeram em início de careira. A bela instrumental acústica “Yes Grosvenor” antecede a crueza de “Riding Backwards”, que encerra o vinil.
Em breve That Evil Drone ganhará versão em CD, o que só servirá para evidenciar o quão colossal e emblemático é o meu LP.

www.myspace/theresonars

segunda-feira, 16 de março de 2009

"On A Happy Note...": LEAVE!

Não cabe a nós tentar entender os desígnios de Deus, nem a obrigação de concordar com eles. Mas talvez um propósito maior estivesse em jogo na passagem do líder do Leave Mike Murphy, em junho de 2008. Aos 32 anos, Murphy nos deixou um legado precioso de canções, talhadas sempre com extrema sensibilidade. E On A Happy Note... soa como ápice desta herança, quando Murphy, acompanhado de Jim Latsis, Terry Keating e Joe Herrmann, ironicamente atingia o ponto de maturação do seu artesanato pop.

Mas On A Happy Note… como o nome indica, está aqui para celebrar o resultado da união e esforço de quatro amigos; celebrar a música que oferece nada mais que boas-sensações; celebrar o talento de um jovem artista, registrado aqui para a eternidade; ser e ficar como um momento feliz de uma banda que deu ao mundo magníficas gemas pop.
Obviamente, é inegável a atmosfera emocional que envolve o ouvinte ao imaginar que aquela voz que amaina frustrações e alegra nossas almas, com melodias de beleza tão reconfortantes, já não está entre nós...

On A Happy Note... é o terceiro álbum do quarteto de Chicago, e, sem dúvida, sua obra-mestra. “Hope It Doesn’t Come My Way” (que já figurava no IPO Eleven) abre o disco com sua batida up, clima sessentista e confirma a capacidade do Leave em forjar peças auto-adesivas em série. Segue a doce “Take The Easy Way Out”, com seu delicado riff, harmonias vocais paradisíacas até encontrar a beleza triste da emocionante “Lovely Mess”. Aqui a garageira-sessentista “Again It’s Too Soon” altera radicalmente a polaridade injetando energia primária nas veias do álbum.

A macia “Every Now And Then” impressiona no trabalho harmônico dos vocais, montado sobre três tons diferentes de voz. A beleza da balada à la John Lennon/Beatles, “Big On Yourself”, comprova o grande artesão pop que era Mike Murphy. “I’ll Get Mine” empolga com seu riff memorável e a acústica “Down The Line” relembra clássicos do folk setentista, até hoje com alta rotação em rádios flashback.

“Your Eyes” envolve e domina os sentidos na melodia adorável, assim como a belíssima e emotiva “On A Happy Note...”. Encerra o álbum, como faixa bônus, a regravação do mega-super-ultra hit do álbum de estréia, o power pop perfeito, “Any Other Way”. Prova de que a única coisa que os remanescentes do Leave querem é que, o grupo e Mike Murphy, sejam para sempre lembrados pelas suas incríveis e inspiradas canções pop.

www.myspace.com/leavechicago

quinta-feira, 12 de março de 2009

"The Chemistry Set EP": THE CHEMISTRY SET!

Se você olhar com atenção para o kit de instrumentos dos londrinos Paul Lake e Dave McLean, vai ter uma pista de onde eles querem chegar: guitarras Rickenbaker e Epiphone; baixos Hofner; teclados Farfisa e Mellotrons. Junte a isso as referências e, aí, você vai ter certeza de como o Chemistry Set vai soar: Love, Syd Barret, Byrds, Brian Wilson, Beatles... O novo EP da dupla inglesa oferece pop psicodélico para a nova geração viajar, sem a inclusão de aditivos químicos na receita base.

Abre o disco, com ares psicodélicos ventilados pelo brilho magnético das Rickenbakers e voz hipnótica de McLean, “She’s Taking Me Down”. Segue “Seeing Upside Down” em seu refrão de harmonias vocais de três partes e a viagem cósmica no Farfisa Compact de “Look At The Sky”. O psycho-jangle de “If Rome Was Meant To Fall” reza pela cartilha dos Byrds e a orquestral e reflexiva “Silver Birch” respira a atmosfera dos Zombies. Ecos surreais e órgãos vintage acompanham a voz de Suzette de la Grace, do grupo espanhol Les Très Bien Ensemble, que canta em francês no faixa final “Regarde Le Ciel”.

www.myspace.com/thechemistrysetuk

segunda-feira, 9 de março de 2009

"Sortie de Secours": MEEK!

Quando Meek nasceu, os Beatles já tinham se separado, os anos sessenta ficado pra trás e o sonho pop perdido o encanto. Demorariam quase 20 anos para que o francês de Montmorency, hoje vivendo em Paris, escrevesse sua primeira canção, uma peça em inglês já fruto de sua fixação pelos Beatles. Multiinstrumentista talentoso, Meek é um emissário das belas melodias de inspiração sixties. Além de fã confesso dos fab four, o artista se mira em Brian Wilson, Zombies, Simon & Garfunkel e compositores franceses como Julien Clerc, entre outros.

Seu quarto álbum, Sortie De Secours, traz uma coleção de canções pop lapidadas com extrema habilidade. Meek toca todas as guitarras, violões, pianos, teclados e faz as vozes – em 12 canções na língua pátria e três em inglês. Todas com evidente potencial de execução em rádios, mas que são limitadas de alcance mundial massivo quando cantadas em francês.

“Six Feet Under” é o primeiro single do álbum, com sua base vocal extremamente melódica e harmônica e batida de violão voluntariosa. “Le Gange Illuminé” é puro pop adornado por ‘uh-uh-uhs’ celestiais e bem cuidados arranjos orquestrais. “Alléluia Bimanie” vem com sua guitarra acústica de doze cordas, em andamento envolvente e melodia magnífica. A balada ao violão “Je Vous Parle De La Pluie Sur La Mer” segue a cartilha do mestre Paul McCartney e a linda “Troublemaker” traz a doce voz de Meek emoldurada por um clássico teclado Rhodes.

Pianos e vibrafones duelam com Telecasters e Stratocasters, sem resistir ao doce refrão em “Evaporée Charlotte Morphinique” e, a bela balada “You’ll Never Die Alone”, segue a cartilha pop dos Beatles. “Paris France” empolga na batida e na progressão de acordes do refrão; encerra Sortie de Secours, a beleza emocional do pop orquestral “Les Princes Morts”. E prova que a maestria pop de Meek tem o poder de arrebatar instantaneamente, mesmo que você só saiba duas palavras em francês.

www.meekintheweb.net
www.myspace.com/meekintheweb

quinta-feira, 5 de março de 2009

"Houses & Homes": THE BYE BYE BLACKBIRDS!

Como pássaros que vêm e vão, espalhando ao vento sementes e cantos, as referências também voam no tempo. “Bye Bye Blackbird” é uma canção de 1926, que virou um standard americano e que, provavelmente, foi o foco de homenagem deste quarteto de São Francisco. Houses & Homes é o primeiro álbum cheio dos Bye Bye Blackbirds – que estrearam em 2006 com o elogiado EP Honeymoon.

Bradley Skaught, William Duke, Ian Robertson e Lenny Gill preparam canções de fina ourivesaria pop, com arranjos delicados e melodias que empolgam ou fazem sonhar. A sonoridade da banda mescla o indie pop do Beulah com o power pop do Minus 5 e o folk rock dos Byrds. Uma profusão de guitarras acústicas e de doze cordas, mellotrons, tamborins e palmas.

Abre o disco um dedilhado nas doze cordas e uma batida up pra animar o salão em “The Ghosts Are Alright”. Harmonias vocais angelicais e melodia de sonhos, é o que oferece a adorável e doce “Shed The Skin”. O Riff macio e esperto, seguido por acordes climáticos em “In Stereo”, é adornado por suaves vocais harmônicos. Segue a beleza acústica e triste que remete sem escalas ao primordial Big Star, na preciosa “Edge Of Town”.

“Original Lights” traz embalo meio havaiano na batida e meio latino tropical nos trumpetes e, “It Only Costs A Dime”, cola imediatamente o refrão bubblegum no cérebro. A doçura e perfeição pop da belíssima “Leave A Light On”, nos deixa levar até onde as asas dos Bye Bye Blackbirds quiserem alcançar.

www.byebyeblackbirds.com
www.myspace.com/byebyeblackbirds

segunda-feira, 2 de março de 2009

"The 4th Italian": MIRACLE MAN & THE POP PROPHETS!

Abençoado seja aquele que suspende as leis naturais, prediz o futuro e se manisfesta em nome de Deus! Mas na verdade aqui o milagre não tem segredo, os profetas veneram o passado e a divindade é o pop. E o homem miraculoso é o italiano Omar Assadi, guitarrista da banda de Milão Radio Days , acompanhado dos profetas do pop Al, Ariel e Lennie.

Em seu EP de estréia, o Miracle Man traz músicas de bases acústicas ao piano, violão e algumas guitarras espetando aqui e ali. Canções inspiradas em Beatles e climas sixties, talhadas com extrema sensibilidade e artesanato pop. Ganchos imediatos e irresistíveis oferecidos em cinco magníficas peças sonoras.

A começar pelo piano da inspirada e emocional “Miss You”, que no crescendo da guitarra acústica e da melodia colante atinge em cheio a memória afetiva do ouvinte. “A Girl Like You”, e seus acordes contagiantes, já ganham o jogo antes mesmo da perfeição pop do refrão entrar em campo. E, se o milagre aqui não tem mesmo segredos, pelo menos a divindade pop iluminou Assadi em mais uma canção: “My Dreams Up The Ground”.

Se os profetas pop em The 4th Italian vislumbram o passado, a doce “Dream Girl” é uma visão purificadora dos anos 60 e, “Talk About You’, incorpora distorção à receita sem perder um milímetro da proficiência pop dos italianos. Agora, cá entre nós, se Omar Assadi estava nos dois melhores EPs do ano segundo o Power Pop Station, começo a me perguntar se esse homem realmente não tem escondido um kit de poderes secretos...

www.myspace.com/onemiracleman

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

"Army Navy": ARMY NAVY!

Mas, afinal das contas, pra que serve o pop? Aliviar as dores do mundo, transformar homens em bobos-alegres na frente do espelho, te pegar pelas mãos e convidar a dançar nas nuvens? Com quantos acordes podemos sonhar com um mundo melhor? Provavelmente lindas melodias podem te catapultar a universos menos hostis e reconfortantes – escondidos aqui, dentro de nós mesmos. Lá fora os gritos de “quem dá mais” abafam as harmonias mais celestiais. Introjetar as boas-sensações pode sim fazer seu dia mais leve e aprazível, apesar da tormenta do outro lado da rua.

E é pra isso que serve o disco de estréia do quarteto de Los Angeles Army Navy. Através de canções, energéticas como uma usina de força e melódicas como o canto dos querubins, a banda domina os sentidos e o estado de espírito dos ouvintes. Não há como escapar: músicas confeccionadas como se fazia nos sixties, mas turbinadas por urgentes guitarras modernas. A canção pop eletrificada por milhares de volts; o vídeo preto e branco dos Beatles em uma TV de plasma; o refrão perfeito reverberando em uma parede de Marshalls.

Assim, os acordes de “Dark Days” abrem o disco, enchem o ambiente e contagiam junto com a batida esperta e o refrão adesivo. O vocal delgado de Justin Kennedy te atrai para os segundos de balada doída à la anos cinqüenta, mas as guitarras, em seguida, despejam potência sem dó, a melodia cola e o clima up te chacoalha sem fim. O pop perfeito e empolgante de “Saints” remete aos britânicos do Mega City Four; e explica porque o álbum – lançado pelo selo da banda The Fever Zone – vendeu impressionantes 3.500 cópias, em três meses, praticamente apenas no boca a boca.

“Slight Of Hand” entrou na trilha filme Nick and Norah’s Infinite Playlist: O Army Navy está pronto para as ondas do rádio, seriados de TV e onde mais haja jovens interessados em um pouco de energia vital via notas musicais. E, para atmosferas mais introspectivas, mas ainda sim poderosas, “Unresponsive Ears” e “Ignite”. Já “Pocket Boys” caminha pelo brit pop noventista, entregando um refrão autocolante e atemporal. “Jail Is Fine” é tão irônica quanto grudenta; tão arrogante quanto adorável; tão agressiva quanto pop.

“In The Lime” alerta para o trabalho das guitarras afiadas de Louie Schultz e para a capacidade dos rapazes da Califórnia em criar chorus memoráveis. Depois desaceleram na power ballad “Golden Pony”, para sentar o pé no acelerador no incrível cover setentista de Maxine Nightingale “Right Back Where We Started From” – e que poderia fácil, fácil voltar às pistas de dança ou às paradas de sucesso pelas mãos treinadas e talentosas do Army Navy.

www.armynavyband.com
www.myspace.com/armynavy