quarta-feira, 19 de março de 2008

"Drum Roll Please": THE SAILS!

Toda vez que leio as listas do melhores discos do ano, feitas pelas principais revistas de música do mundo, fico intrigado. Primeiro com a capacidade dos críticos de elencar basicamente as mesmas bandas; depois com o compromisso implícito em indicar grupos de grandes gravadoras; e ainda, com a falta de visão do que acontece nas camadas mais internas – não inferiores – do mundo pop. São listas míopes e claramente comprometidas com o departamento de marketing de algum selo ou gravadora. Aí alguém diz: é, mas as bandas que aparecem aqui no Power Pop Station, são por demais derivativas para o gosto dos críticos de grandes revistas... e aí eu digo, se Strokes, Franz Ferdinand, Interpol, e outros queridinhos da crítica, não são derivativos, então eu não sei o que essa palavra quer dizer. E, se outros apontam que original e vanguardista é o som do atual do Radiohead, ok, podem ficar com aquela chatice masturbatória e cerebral.

Tudo isso dito para chegar no Sails. Banda de Michael Gagliano, tão desconhecida quanto qualquer outra que a crítica considere “derivativa”. Apesar das publicações Mojo e Q terem se rendido e elogiado o grupo inglês... Este Drum Roll Please é uma espécie de coletânea - traz quatro músicas já lançadas no álbum debute do Sails, algumas do ex-grupo de Gagliano Epic e outras inéditas – e só foi lançado no mercado japonês. A impressão aqui é de canções clássicas, você ouve e duvida que alguém não tenha pensado naquela melodia antes. Porque Gagliano vai no cerne das sonoridades que com o tempo se transformaram em estilo. Mescla o pop sessentista de Beatles e Brian Wilson com o brit pop noventista. Tudo composto, gravado e produzido por ele mesmo, que também tocou todos os instrumentos, com exceção da bateria.

Quando ouvi a faixa de abertura “Best Day”, achei que seria alguma faixa clássica dos anos 80/90 que eu podia ter ouvido alguma vez: Violão, uma camada climática de teclado por baixo, um refrão memorável... “See Myself” vem com um dedilhado luminoso de guitarra e melodia na escola brit pop do LA’s. Contrapondo com a voz robótica que abre “Chocolate” entra os ‘uh-uh-uhs’ e um Gagliano soando como John Lennon disposto a estourar as paradas pop do planeta. O que realmente Michael Gagliano poderia ter feito com o pop perfeito e de refrão monumental “Let’s Get Started” – a crítica só pode ser burra e surda para não ter ouvido essa gema.

Neste ponto é que se tem que ter cuidado, o limiar entre o pastiche e o clássico: “Yesterday And Today” é uma espécie de “God Only Knows” dos ’00. Talvez o próprio título possa se referir a essa contraposição temporal – aquilo que pode ser relevante hoje fazendo referência explícita ao passado. Mas, sinceramente, a orquestração da canção é tão divina, o clima tão onírico com uma melodia tão emocionante, que nada mais importa do que o lugar para onde a música te transporta em menos de dois minutos: o paraíso.

“Peter Shilton” é mais uma candidata a hit eterno, que poderia estar flutuando pelas ondas do rádio desde tempos imemoriais. O refrão grudento e sua harmonia vocal cheia de ‘ah-ah-ahs’, lembra os ‘power pop heroes’ do anos 90 Material Issue. Outra que poderia entrar no panteão de canções da banda de Jim Ellison é a contagiante, energética e pop “Pleasure Bus”. “Liar” vem confirmar a redundância: Michael Gagliano é um mestre do refrão assobiável... “Dogs” retoma a influência clara dos LA’s e reaviva a anos dourados do brit pop. “Drunken Love Song” parece canção de natal de John Lennon que literalmente emenda na versão rocker genial de “Yesterday And Today”, “Yesterday And Today Pt. 2”.

E eu me pergunto: por onde andava Michael Gagliano todo esse tempo? Pérolas pop atrás de pérolas pop, e Drum Roll Please vai se tornando item obrigatório na coleção de qualquer power poper que almeja alcançar os céus em vida. “Sorry” já impressiona na entrada, numa progressão de acordes manjada, mas que faz a alegria dos fãs de música melódica. Segue pop, dá uma espetada nas guitarras distorcidas para voltar macia como uma boa canção pop orquestral sabe fazer. “Beautiful Day” chega mansa, devagar, parecendo soft rock dos anos 70, à la Bread, até o pedal de distorção cantar alto e bater a saudade de “Creep” do Radiohead, quando o Radiohead sabia o que era o valor de uma canção pop. “Best Day”, fecha disco em versão bônus cantada por Sarah Kiely.
É improvável que o mundo um dia conheça Drum Roll Please – até porque só foi lançado no Japão. Mas se a banda dos corações solitários tocar ao menos um punhado de almas ao redor do mundo, esses já se sentirão os próximos eleitos.

www.myspace.com/thesails

4 comentários:

dbareas disse...

Eu também não compreendo porque tantos artistas e bandas ótimas que descobri aqui nunca fazem parte de qualquer lista de melhores do ano. Mas vou me permitir discordar de vc em relação às bandas que vc mencionou. Se várias das bandas e artistas do powerpop não alcançam a projeção que mereciam, isso não significa que todas as bandas citadas pelas listas não tenham qualidade. Sinto muito, mas na medida em que, ao invés de defender os artistas e bandas que vc apresenta, prefere atacar ótimas bandas como Interpol, Strokes ou Radiohead, vc perde a razão.

Paolo Miléa disse...

Caro leitor, primeiramente obrigado pelo comentário.
Em nenhum momento eu disse que as bandas citadas não têm qualidade ou valor. Apenas disse que o rótulo "derivativo" deveria caber à esses conjuntos, como, segundo os críticos musicais, cabe ao power pop.
Posso te dizer que gosto bastante do Strokes - tenho os três álbuns - e admiro incondicionalmente o Radiohead - tenho os cinco primeiros álbuns. Só não curto o caminho que os ingleses tomaram nos últimos trabalhos: a mim não emociona e soa deveras chato.
Quanto a "perder a razão" não concordo, pois estamos numa tribuna livre e democrática; a "razão" aí depende da visão de quem interpreta. Quem não acha Strokes, Interpol e Radiohead "ótimas bandas", por certo vai discordar de você.

dbareas disse...

OK, Paolo...na realidade, eu tinha entendido que vc não gostava das bandas que tinha mencionado. De minha parte, todas as bandas e artistas que encontrei no seu blog e na comunidade do Orkut (e gostei de tudo) procuro mostrar para o máximo de pessoas que eu puder, apesar de (infelizmente) ser muito difícil de encontrá-las, quase sempre. Parabéns pelo trabalho.
Abraços

Paolo Miléa disse...

Dbareas, fico feliz que você goste e acompanhe o blog e, principalmente, que tente 'espalhar a palavra'. A idéia não é dominar o mundo; é fazer as boas sensações chegarem ao maior número de pesssoas que pudermos!
Obrigado pela companhia e continue divulgando!