segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Da Série CLÁSSICOS: "Epiphany" - POP IS ART!

Por Daniel Arêas

Epifania é um momento de clarificação com relação a algo. Significa uma súbita iluminação (para muitos, de caráter divino, espiritual) que permite ao indivíduo uma total compreensão de alguma coisa. E é também o título (Epiphany) do terceiro disco da série Clássicos do PPS. Embora o título a princípio se refira a um importante trecho do álbum, não seria difícil imaginar que também esteja relacionado à própria decisão do cantor/compositor/multiinstrumentista Scott McGinley – o homem por trás do nome do projeto, PoP is ArT – em gravar o disco.

O americano Scott McGinley é um veterano músico, tendo feito parte de bandas como The Insiders, Bliss e New Religion, e chegou a atingir grande sucesso na Ásia (maiores informações sobre sua carreira, nos comentários). Em determinado momento de sua vida, se viu diante de dois caminhos a seguir: repetir (como músico, compositor e performer) a fórmula que indiscutivelmente vinha dando certo, ou expandir seus horizontes e realizar um trabalho em que realmente pudesse dar vazão a toda sua criatividade e talento. A epifania de Scott pode ter se dado aí: perceber que o que o faria feliz era realizar um trabalho livre de quaisquer amarras impostas pelo mercado. Um trabalho, enfim, no qual ele se fixaria apenas na sua arte.

E assim nasceu o PoP is ArT (titulo que é auto-explicativo). O que Scott não poderia prever é que faria um dos maiores discos da década (não apenas no universo do power pop, mas no da música como um todo). Os diversos temas e estados de espírito que surgem em seu disco – do bom humor à melancolia e reflexão, do mais puro romantismo à espiritualidade – ultrapassam os limites convencionais do power pop, assim como as influências que nortearam sua criação (às inevitáveis inspirações em Beatles, Beach Boys, Kinks, Cheap Trick, unem-se às referências de ELO, Pink Floyd, Supertramp). Toda essa miscelânea resultou numa obra verdadeiramente de gênio – e sem deixar de ser pop em instante algum. Todas as informações que constituem o background das canções, narrados nessa resenha, foram extraídas do site do PoP is ArT (o endereço está no fim do texto).

A abertura de Epiphany, “All I Know”, é não menos que sensacional. Inicia com a ótima voz de Scott acompanhada de guitarras afiadas, evocando o Cheap Trick. Se assim permanecesse até o fim, já teríamos uma faixa de abertura de respeito, mas Scott quer mais. Subitamente, somem as guitarras e surge um interlúdio composto por timbres e harmonias vocais típicas dos Beach Boys. O ouvinte ainda se surpreenderá, em seguida, com a volta das guitarras, mas o melhor fica para o final. A junção de orquestrações com a paulatina entrada das guitarras e da bateria, com Scott repetindo indefinidamente o refrão, remete aos melhores momentos do ELO.

Essa é apenas a primeira música de Epiphany, e seria o ponto máximo de milhares de álbuns. O ouvinte, se fizer a (equivocada) associação do termo “pop” à mediocridade que impera nas rádios de hoje, poderá até pensar que o “pop artístico” a que Scott se propôs tem essas características: arranjos ricos e elaborados, longas canções compostas por vários trechos... mas, essa suspeita, se dissipará assim que surgirem os primeiros acordes de “Let Me Be The One”.

Ali, na posição dois do álbum, onde costumam ficar os primeiros singles dos discos (mera coincidência?), está a melhor canção pop que você, caro(a) leitor(a), ouvirá em muito tempo. Contrastando com a faixa de abertura, “Let Me Be The One” (dedicada à esposa de Scott, a também cantora e compositora Vicky McGinley, nascida em Taiwan) é de uma singeleza quase desconcertante – mas de forma alguma inferior por isso. Nela estão todos os elementos da clássica canção pop perfeita: melodia apaixonante, refrão pegajoso com belos versos românticos (“Let me be the one who brings you running/Let me be the one who’s always there/I’ll be the one to lend my shoulder/When you can’t find someone who cares/Let me be the one”) palminhas no fim ao ritmo da música... enfim, fica o conselho: não ofereça resistência, porque será impossível não se sentir contagiado.

“Are You A Boy Or A Girl”, uma bem-humoradíssima canção, de versos hilários (“Don’t get me wrong from my question/And I don’t mean this to be rude/It’s not some kind of intervention/But I can’t tell it from your shoes”) é British Invasion até a medula: se inicia evidenciando a influência de bandas como Kinks ou Small Faces, no refrão segue a tendência de alternância de ritmos, lembrando Beach Boys/Zombies.

A linda “Here Comes The Music”, canção de base acústica, repleta de harmonias vocais simplesmente deslumbrantes, trata do bloqueio criativo que volta e meia acomete artistas, mas também, e principalmente, da mágica que a música é capaz de proporcionar. O título da canção, porém, tem por trás uma tocante história, novamente ligada a Vicky. Conta Scott que no início do relacionamento dos dois, quando então Vicky ainda estava aprendendo a falar inglês, ele compreendeu quando em uma ocasião ela disse “comes the music” – significava que ela estava pedindo a ele que colocasse algum CD para tocar. Certamente esse background emocional contribuiu para que “Here Comes The Music” saísse tão bonita.

A partir daí, inicia-se o que Scott chama de “lado conectado” do álbum, em que todas as canções possuem alguma ligação entre si. O bom humor e o romantismo das quatro primeiras canções dão lugar a temáticas mais densas, profundas. A ótima “Misled” (canção beatle por excelência, parecendo ter sido extraída do Abbey Road ou White Album) aborda o tema do sentimento de solidão, mesmo estando deitado ao lado de uma pessoa. “Higher” – cujo tema é a auto-medicação para fugir dos problemas da vida e dos relacionamentos fracassados – é outro esplêndido momento do álbum, iniciando de uma forma (o tom baixo, quase sussurrante da voz de Scott e o dedilhar do violão sugere uma canção aos moldes das de Elliott Smith) e encerrando de outra forma completamente diferente (com um magnífico solo de guitarra que David Gilmour poderia perfeitamente ter assinado).

Enquanto o solo de guitarra vai lentamente sumindo, outro assunto caro ao álbum vai sendo introduzido: a espiritualidade, através da breve “Father Father”, na qual o personagem da canção diz repetidamente “Father Father/I’ve lost my way”, até desembocar em harmonias vocais verdadeiramente celestiais. Há um breve hiato, ocupado pela triste – porém bela - “The Other Side (A Requiem For Phebe)”, canção que provoca lembranças de Paul McCartney, até que “Father Father” reaparece. Só que, desta vez, trazendo a redenção do narrador, que decide então “abraçar” a espiritualidade para tentar se salvar (“Father Father/Help me find my way”) e colada a “Wake Up!”, onde os instrumentos básicos do rock convivem harmoniosamente com orquestrações. Fecha-se então mais uma memorável sequência do disco. Mas ainda não é o fim...

Scott ainda consegue nos surpreender com a soberba “Angry Young Man/Averice/Angry Young Man”, que com seus quase nove minutos de duração pode ser considerada a canção “épica” do disco, mas não apenas por sua duração. É mais uma canção de redenção, de clarividência, de descoberta do real sentido da vida – de epifania, enfim. Embora o primeiro trecho de “Angry Young Man” se inicie nos moldes de uma típica música do Pink Floyd, as mudanças de andamento na canção, como um todo, remetem ao Supertramp.

Aqui, Scott assume o papel de um jovem que acredita que a felicidade pode ser comprada, através da obtenção de bens materiais, mas que começa a se questionar (“But I was such an angry young man/Could life work like out I planned?/Could I ever be satisfied? (Was I wasting my time?)/But I remained an angry young man”). Já no trecho seguinte, “Avarice” (que se inicia no mesmo tom do trecho anterior, mas que paulatinamente vai ganhando em peso e energia, até se tornar o momento mais heavy do álbum) Scott se posta como observador do momento de iluminação, da tomada de consciência, por parte do “jovem raivoso”, de que a felicidade reside dentro de nós, e tem a ver com dar, e não receber – observador de sua epifania, em resumo. E na reprise de “Angry Young Man” – novamente cantada por Scott na 1ª. pessoa - o personagem da canção confirma seu momento de realização (“I was such an angry young man/A fools parade for the angry young man/Say Good-bye for the angry young man”).

Para Scott, mesmo nos momentos difíceis, tudo acaba bem. E ele não deixa qualquer dúvida quanto a isso com a entusiasmante “Smile!”, a canção que fecha o disco. Sobre uma cama de teclados e arranjos sinfônicos acompanhando baixo, guitarra e bateria – novamente tendo o Supertramp como referência – os versos do refrão não poderiam ser mais diretos: “Things will get better/Stand up in style, don’t you know it’s gonna be alright/Get up & smile, cause everything is gonna be just fine”.

Pop é arte, afirma Scott McGinley. Mas ele afirma que o pop é intrinsicamente arte, seja de que formato for – isso ele deixa claro ao unir num mesmo álbum canções como “All I Know” (com diversas mudanças de andamento, arranjos ricos e variados) e “Let Me Be The One” (encantadoramente simples, contando apenas com os básicos instrumentos do pop-rock e cativantes versos diretos e românticos). É aí que reside a genialidade de sua obra. Mesmo nas canções mais sofisticadas, tocando em temas mais profundos e sérios, Epiphany provoca todas as reações que um clássico disco pop deve despertar no ouvinte, do primeiro ao último minuto: sensações de bem-estar, prazer, diversão, alegria, otimismo. Se a decisão de criá-lo foi resultado de sua epifania, que mais e mais artistas passem por esse momento de iluminação, para ganharmos mais obras-primas como esta.

http://www.popisart.com/
www.myspace.com/popisart

2 comentários:

dbareas disse...

Aqui vão mais algumas informações sobre a carreira de Scott McGinley e das bandas de que fez parte, e que não foram postas na resenha por pura falta de espaço.

NEW RELIGION - banda formada por Scott no início dos anos 90, iniciou sua carreira numa tour por vários países da Ásia, atingindo reconhecimento. Originalmente criada como uma banda funk, pouco a pouco foi mudando seu som para o power pop. Seu único real disco lançado é "Something Worth Keeping" - título sugestivo, considerando-se que foi gravado num período em que a banda começou a ter constantes trocas de formação. Scott então resolveu acabar com o New Religion, e formou:

BLISS - No fim do anos 90, e voltando à Ásia, a banda fez grande sucesso em países do continente, chegando a atingir a marca de 4 Top Ten, e fazer shows para mais de 30.000 pessoas.

dbareas disse...

Como está dito na resenha, PoP is ArT é um projeto no qual Scott resolveu libertar toda a sua criatividade e talento, apesar do potencial comercial que o Bliss tinha. Na verdade, Epiphany não é o primeiro disco da banda. A estréia aconteceu com "In the Beginning" (2002), composto por músicas do Bliss, New Religion e The Insiders

THE INSIDERS - não exatamente uma banda, é uma festa que ocorre na Philadelphia, em que tocam hits dos anos 50 até os dias de hoje. É na verdade uma celebração, sem uma formação definida (os únicos membros permanentes são Scott e sua mulher, Vicky Chen-McGinley).

Maiores informações:
www.popisart.com