quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

"Same Old Story": LANNIE FLOWERS!

Fico imaginando como seria viver em um mundo onde os Beatles fossem os donos soberanos das paradas de sucesso. Como teria sido estar nos Estados Unidos, em 1964, quando os garotos de Liverpool emplacaram cinco canções no top five americano. Era girar o botão do dial do rádio e encontrar gemas pop atrás de gemas pop. Nunca estive nos anos sessenta e certamente não saberemos como foi tal sensação, mas podemos chegar perto com este Same Old Story.

O cantor-compositor americano Lannie Flowers surge, em pleno 2008, como a novidade mais clássica dos últimos tempos. Apesar de ser um veterano – liderou a banda de Dallas The Pengwins, entre fins dos 70 e início dos 80 – não se tinha notícia do artista até Same Old Story. Que na verdade é uma coletânea com canções compiladas de centenas de demos, gravadas por Flowers nos últimos 20 anos (ou mais). Mas a surpresa: as músicas aparecem quase como vinhetas, em versões incompletas que se juntam à faixa seguinte como uma grande colagem pop. Algumas não duram mais que alguns segundos e outras chegam a mais de dois minutos, totalizando 36 faixas.

A nova surpresa: o álbum se torna, talvez, a maior coleção de melodias memoráveis, refrões ganchudos, pegadas energéticas, harmonias perfeitas, hits pop, reunidas em um só disco, da história do power pop. É uma sucessão de canções pop tão preciosas, que dá até raiva quando a música não se completa e já pula para a seguinte. É a sensação que não tivemos, porque não existíamos, nos anos 60: ouvir Same Old Story é como se estivéssemos com os dedos no dial de um rádio daquela época e fossemos mudando de estação; hit sobre hit e uma seqüência interminável de músicas contagiantes. Com a diferença de ser sempre o mesmo artista.

E, claro, Flowers se inspirou nos heróis dos 60 e 70, como Beatles, Who, Kinks, Badfinger, Big Star, Raspberries, Elvis Costello, para compor clássicos que podem durar 30 segundos e nunca mais sair da sua cabeça. Porque, mesmo Lannie gravando tudo em sua garagem, impressiona a destreza do músico em criar as sonoridades exatas do power pop perfeito. As timbragens dos instrumentos, os caminhos melódicos, os encaixes dos refrões, os tempos das harmonias vocais, a maestria na montagem ‘verso-refrão-verso-ponte-refrão’.

Depois de algumas audições, a proposta de Flowers, em colocar faixas curtas com cara de não-terminadas, começa a fazer sentido. Porque o cerne das canções está lá. O riff potente e adesivo; que abre passagem para a melodia contagiosa; que entrega de bandeja o refrão autocolante - que gruda na sua memória afetiva... Aí, começa aquele processo, em que antes de terminar uma faixa você já consegue se lembrar da próxima, e depois da próxima, não importando se são... 36 músicas!

Por isso mesmo, é tarefa ingrata, quase impossível, destacar faixas em Same Old Story. De qualquer forma, há uma seqüência espetacular, logo no início do álbum, marcada por algumas da melodias/refrões mais envolventes da década: “Circles” – “Another Weekend” – “Tired Of Being Alone” – “Something Happened” – “Everywhere I Go” – “Give Me Chance” – clássicos instantâneos e, agora, eternos. “Our Home”, por exemplo, é só um belíssimo refrão. “I Wanna Be The One” emula Bob Dylan até bater em um chorus tão celestial quanto pop. “You Said Goodbye” precisa de um minuto e quarenta segundos para mostrar todos os ingredientes de uma canção radiofônica perfeita e ser melhor que 99% de tudo que tocou nas rádios em 2008.

Outra peça que com menos de 20 segundos cativa com suas harmonizações vocais dos céus: “Nothing New”. E, seria possível uma música de 30 segundos ficar decalcada por meses no cérebro? Experimente “Turn Off The Night”. O clima emocional e pegada power em “By Your Side” antecede a incrível pérola pop “You Said”, que mesmo com menos de dois minutos consegue encaixar seu ‘verso-refrão-ponte’. O mesmo se pode dizer de “You, Yeah You”, só que essa não passa do um minuto e vinte. Sempre com temas que abordam relações frustradas, cartas de amor juvenis, o romantismo de uma época da vida que não volta mais.

“Thanks A Lot For Nothing” remete às baladas beatle, de beleza única e notas de piano duelando com as guitarras. Depois, mais um clássico imediato: “Thing For You”. Será mesmo que ninguém tinha pensado nessas melodias? A incredulidade bate forte: como Lannie não usou essas canções antes, como as deixou empoeirando em baús no porão de casa? Muitas delas seriam hits, seriam número um, paradas pelo mundo afora. Não hoje, onde a realidade da indústria musical está de ponta cabeça. “You’re Not Going Anywhere”, por exemplo, poderia ter chegado lá. Já a linda “You Wanna Be Free Again” poderia ensinar ao Oasis atual, como emular a fase psicodélica dos Beatles sem deixar de ser pop. E assim segue a sensacional coleção de canções/vinhetas/colagens/refrões de Lannie Flowers.

Com quem, aliás, estive em contato para ver a possibilidade do lançamento de um futuro álbum coma as versões completas de pelo menos 15 das canções de Same Old Story. Para isso, pedi a fãs do disco que fizessem suas listas. As mais votadas encaminhei a Lannie, que disse ser uma possibilidade real que as escolhidas virem um álbum cheio. E, sem dúvidas, mesmo não sendo um disco de canções completas, estamos diante do “álbum do ano”, e possivelmente um dos melhores da década. Agora, quando me perguntarem “o que é power pop”, a resposta será: “Same Old Story”.

www.myspace.com/lannieflowers

Um comentário:

dbareas disse...

Duas grandes sacadas:

1) Comparar a audição do disco a ouvir rádio e ir passando de estação pra estação (será q vamos viver o suficiente para ver o ato de ouvir rádio voltar a significar ouvir músicas boas?)

2) Considerar o disco uma espécie de "manual" do power pop, algo q mostre de maneira definitiva do q se trata, afinal, o gênero. Sem dúvida, difícil imaginar outro disco q demonstre com tamanha exatidão o q é power pop. É aquilo q vc diz:"quer saber o q é power pop? Ouça Same Old Story"

Ressalte-se q, apesar de serem demos, a produção das músicas é de boa qualidade.